No PIB, retomada com pouco fôlego

O País saiu do buraco, mas a recuperação se esgotou e as perspectivas são de crescimento modesto e com inflação alta

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 03h00

Com expansão de 4,6% no ano passado, a economia brasileira saiu do poço onde havia afundado em 2020 e ficou 0,5% acima do patamar de 2019. Mas isso está longe de indicar um retorno à prosperidade. Concluída a recuperação em V prometida pelo ministro Paulo Guedes, nada permite prever, a curto prazo, uma nova fase de dinamismo. Com desemprego elevado, inflação superior a 10% nos 12 meses até janeiro e juros ainda em alta, é difícil imaginar crescimento econômico acima de 0,5% em 2022 e de 2% em 2023. Segundo o mercado, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 0,3% neste ano e 1,5% no próximo – dados correspondentes à mediana das projeções. Os números da última década, e especialmente os do período do presidente Jair Bolsonaro, compõem um quadro de mediocridade, estagnação e retrocesso industrial. É indisfarçável o descompasso com o mundo emergente.

Esse quadro de mediocridade, agravado por uma dívida pública muito cara e muito grande para um país de renda média, será recebido como um legado nada invejável pelo presidente eleito no fim deste ano. Se quiser fazer algo relevante, esse presidente deverá reverter um roteiro já muito longo de degradação. Nos cinco anos a partir de 2017, quando o Brasil saía de uma severa recessão, o PIB acumulou expansão de 4,9%. Nesse período, o avanço médio anual foi inferior, portanto, a 1%.

Em 2019, início de mandato do presidente Bolsonaro, a economia cresceu 1,2%, bem menos do que em 2018, quando o ritmo foi de 1,8%. O País já perdia impulso, portanto, no ano anterior à pandemia. Longe de afetar uma economia vigorosa, o surto de covid-19 agravou a situação de um país em marcha lenta e enfraquecido por longa sequência de erros políticos.

O potencial de crescimento depende, em grande parte, do investimento em máquinas, equipamentos, obras de infraestrutura e outros tipos de construção. No jargão dos economistas, isso é conhecido como “formação bruta de capital fixo”. No ano passado, esse tipo de investimento foi 17,2% maior que em 2020 e equivaleu a 19,2% do PIB. Houve taxas maiores que essa em sete anos, neste século, e em quatro a relação superou 20%. Mesmo nas melhores fases, no entanto, o Brasil ficou longe do padrão observado nos emergentes mais dinâmicos, onde o valor aplicado em capital fixo tem frequentemente superado 24% do PIB.

A retomada no ano passado resultou principalmente do setor de serviços, com crescimento de 4,7%. O maior impulso, nessa área, veio dos segmentos de informação e comunicação, com avanço de 12,3%, e de transporte, armazenagem e correio, com ganho de 11,4%. A atividade agropecuária, há muitos anos a mais eficiente e mais competitiva do Brasil, encolheu 0,2%, prejudicada pelas más condições do tempo. O agronegócio permaneceu, no entanto, como fonte principal de receita no comércio externo de bens. O aumento da produção geral da indústria, de 4,5%, mais que compensou o recuo do ano anterior, de 3,4%. O resultado positivo dependeu basicamente da construção, com avanço de 9,7%.

A indústria de transformação, na qual foi mais visível o retrocesso no último decênio, produziu 4,5% mais que em 2020, mal compensando o recuo de 4,4% ocorrido no primeiro ano da pandemia. Em 2019 a produção desse importante segmento havia diminuído 0,4%. Máquinas e equipamentos, veículos automotivos, outros equipamentos de transportes e metalurgia foram os destaques positivos.

O consumo das famílias aumentou 3,6%, depois de ter diminuído 5,4% em 2020. A reação, embora incompleta, foi favorecida pela vacinação – apesar da atitude frequentemente contrária do presidente Bolsonaro – e pela redução gradativa das limitações à frequência de restaurantes, bares, lojas e locais de prestação de serviços. Mas o poder de compra foi prejudicado pelo desemprego e pela inflação elevada. Em aceleração durante a maior parte do ano, os preços ao consumidor subiram 10,06% em 2021, segundo o cálculo oficial. Preços em alta devem permanecer em 2022, segundo se estima, como importante entrave ao consumo e ao crescimento econômico.

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