No pódio da inflação

O Brasil se destaca pela alta de preços, turbinada por abusos da cúpula federal

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 03h00

Inflação de 7,2% é o principal destaque do Brasil em 2021, no panorama global da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No quadro recém-atualizado, só dois países do Grupo dos 20 (G-20) apresentam maior desarranjo nos preços ao consumidor: Argentina e Turquia, com altas estimadas em 47% e 17,8%. Mais próximos dos problemas e com informação mais pronta, economistas brasileiros calculam resultados mais desfavoráveis e projetam para este ano um aumento de 8,35% para os preços ao consumidor. A estimativa para 2022 chegou a 4,10%, menos sombria que a da OCDE (4,9%), mas a tendência tem sido de piora, como percebem, de forma dolorosa, as famílias confrontadas no dia a dia com produtos essenciais sempre mais caros.

Em relação ao crescimento econômico, os técnicos da OCDE foram na contramão dos brasileiros. No Brasil, os analistas do mercado têm reduzido as projeções de expansão do Produto Interno Bruto (PIB). O número calculado para 2021 passou de 5,27% a 5,04% em quatro semanas, segundo o boletim Focus, do Banco Central (BC). A expectativa para 2022 caiu para 1,63%, mas algumas grandes instituições do mercado já divulgaram estimativas em torno de 0,5%. Segundo a OCDE, o PIB do Brasil deve crescer 5,2% neste ano e 2,3% no próximo, superando a evolução estimada no mercado. No mesmo cenário global, no entanto, o Brasil é superado em 2021 por 11 países do G-20 no quesito crescimento. Na liderança aparecem a Índia (9,7%), a China (8,5%) e a Turquia (8,4%).

Mas o Brasil tem “um dos melhores desempenhos entre os emergentes”, disse na Organização das Nações Unidas (ONU), na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro. Entre os emergentes do G-20, no entanto, Índia, Turquia, Argentina (7,6%) e México (6,3%) crescem mais que o Brasil neste ano, de acordo com a OCDE. Quanto à China, é difícil, nesta altura, classificá-la como emergente, se forem considerados o seu desenvolvimento industrial e o seu avanço científico e tecnológico.

A comparação com os demais emergentes também fica difícil se forem levados em conta o desemprego e o agravamento das condições dos mais pobres, a partir da pandemia, incluindo o aumento do número de pessoas subnutridas. A fome voltou a aparecer com destaque no cenário brasileiro, especialmente quando a administração federal diminuiu e em seguida eliminou a ajuda aos mais vulneráveis. O auxílio só foi retomado, e de forma parcial, a partir de abril, depois de três meses de suspensão, mas detalhes desse tipo foram omitidos pelo presidente Bolsonaro, em seu discurso na ONU, na passagem a respeito do socorro aos pobres.

O Brasil encaixa-se mal no quadro relativamente otimista da OCDE. Embora a estimativa de crescimento global em 2021 tenha diminuído de 5,8% em maio para 5,7% em setembro, o cenário se mantém promissor. A expansão mundial de 4,6% calculada para 2022, 0,1 ponto superior à indicada na avaliação anterior, também é satisfatória. O avanço da imunização, insuficiente em muitos países em desenvolvimento, é fator de incerteza. A variante Delta, evidente causa de preocupação, tem produzido efeito econômico relativamente moderado em países com altas taxas de vacinação. Em outros, no entanto, afetou o impulso de recuperação e agravou os problemas de custos e de suprimento.

O documento destaca as pressões inflacionárias, sensíveis em todo o mundo, mas qualifica o problema como provavelmente passageiro. Isso pode ser verdadeiro em outros países. No Brasil, a tese de um surto inflacionário foi mantida por algum tempo pelo BC, mas já perdeu efeito prático. No mercado brasileiro, as pressões foram crescentes durante a maior parte do ano e, segundo o mercado, a inflação só deve chegar à meta em 2023.

Como regra básica, a OCDE recomenda a manutenção de estímulos fiscais e monetários, por algum tempo, para garantir o prosseguimento da retomada. É complicado seguir a recomendação no Brasil, onde os desmandos do presidente ameaçam a saúde das finanças públicas, a estabilidade e a previsibilidade dos preços.

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