Notório uso político de dados incorretos

Números revisados do Caged mostram que a realidade é bem menos brilhante que o discurso de Bolsonaro e Guedes

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 03h00

O governo do presidente Jair Bolsonaro tornou a desconfiança elemento necessário para os cidadãos avaliarem as informações divulgadas por órgãos e altos funcionários públicos federais, especialmente as mais celebradas pelas autoridades. Deliberadamente ou não, muitas dessas informações são ou podem estar erradas. É o caso dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que o governo utilizou como propaganda para tentar esconder a dimensão da crise social e econômica. Sabe-se agora que os números exuberantes exibidos pelo presidente e por seu ministro da Economia, Paulo Guedes, para mostrar a rápida geração de empregos de qualidade no ano passado estavam errados. A realidade é bem menos brilhante do que a que o governo vinha mostrando. O saldo de empregos formais gerados em 2020 é praticamente a metade do que havia sido anunciado.

Após meses negando que tivesse havido subnotificação de contratações e demissões nos meses que se seguiram ao início da pandemia, o Ministério do Trabalho e Previdência afinal admitiu o que pesquisadores independentes já apontavam desde meados do ano passado. Os números estavam errados. A mudança de metodologia de coleta de dados (com o uso de informações do eSocial) juntou-se à crise que reduziu a atividade de muitas empresas, levou ao encerramento de atividades de outras e forçou boa parte delas a suspender o envio regular de informações mensais. Os dados do Caged ficaram desatualizados ou subnotificados. Daí a necessidade de sua revisão.

A revisão mostrou que a geração de emprego formal foi bem menor do que a anunciada. Em janeiro, o Ministério da Economia havia divulgado a criação líquida de 142.690 empregos formais em 2020. A revisão reduziu esse número para 75.883, 47% menor.

Meias-verdades, fatos descontextualizados e mentira pura e simples são tão frequentes em falas do presidente da República, seus filhos e assessores graduados, que parte do público parece protegida dos efeitos deletérios dessas práticas. Dados imprecisos ou incorretos processados por instituições públicas, porém, são mais raros.

Revisar dados econômicos não deveria ser evento político. Mas este governo transformou até estatísticas em instrumento de manipulação político-eleitoral. Não faz muito tempo, ao comentar os números do Caged, o ministro Paulo Guedes afirmou que o Brasil estava criando empregos “muito rapidamente”. E completava: “Estamos gerando praticamente 1 milhão de empregos a cada três meses e meio”.

Era óbvio o contraste entre os dados do Caged e os apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, mostrando a existência de cerca de 13 milhões de desempregados e outros milhões de desalentados ou subocupados. Sem argumento técnico para explicar essa discrepância, Guedes disse que “o IBGE ainda está na idade da pedra lascada”. Felizmente, ao contrário do ministro, pesquisadores do mercado de trabalho responsáveis sabem onde buscar dados confiáveis.

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