Novas tecnologias, velhos problemas

Onda de roubo de celulares limita o uso de aplicativos por paulistanos, obrigados a usar aparelhos com poucos recursos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2022 | 03h05

O Brasil, como o resto do mundo, está experimentando há alguns anos um formidável avanço na oferta de serviços disponíveis pelo celular, em especial o comércio eletrônico e as operações bancárias. Mas, por ser um país em que a violência urbana é igualmente parte integrante do cotidiano dos cidadãos, esses mesmos avanços não podem ser usados em sua plenitude, pois permitem que criminosos, roubando celulares, invadam contas bancárias ou façam compras em valores altíssimos. A facilidade é tanta e os ganhos são tão altos que essa modalidade de roubo chamou a atenção do crime organizado, que passou a se associar a quadrilhas especializadas em celulares.

Se os bandidos aderiram à tecnologia dos aplicativos de celular – decerto mais barata, segura e eficiente do que explodir caixas eletrônicos –, os pobres cidadãos estão sendo obrigados a evitá-la. Reportagem do Estadão mostrou que muitos paulistanos, infernizados por uma onda de roubos de celulares, passaram a usar na rua aparelhos antigos, com um número limitado de aplicativos sensíveis e sem acesso à conta bancária ou a cartão de crédito, ou então ter um celular reserva em casa somente para fazer transações bancárias.

Uma das estratégias de quem busca se proteger contra futuros golpes é manter apenas um aplicativo bancário no celular utilizado fora de casa − com pouco dinheiro em conta e limite reduzido para transferências (além da opção de empréstimos desativada).

Para quem é de gerações anteriores ao Pix e aos smartphones, a estratégia não chega a ser novidade. Trata-se, na verdade, de uma atualização, em tempos de alta tecnologia, da tática de andar com uma carteira com pouco dinheiro e sem documentos ou de carregar, no banco da frente do carro, uma bolsa sem nada de valor, enquanto a bolsa “verdadeira” permanece no porta-malas.

Outra reportagem recente do Estadão revelou que o roubo de celulares para acessar contas bancárias e fazer transferências por Pix entrou no radar do crime organizado: investigação da Polícia Civil apontou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) havia cooptado uma quadrilha com atuação na Bela Vista − bairros nobres e a região central de São Paulo tiveram expressivo aumento de roubos entre janeiro e março deste ano. A operação policial descobriu um núcleo responsável por desbloquear celulares roubados para invadir contas. E mirou grupos que recebiam aparelhos em lojas de eletrônicos e quartos de hotéis no centro da cidade. 

Os governos e as polícias informam que estão tomando providências tanto para coibir o envolvimento do crime organizado como para reduzir as ocorrências de roubo de celulares. Em breve, certamente números grandiloquentes serão apresentados para mostrar bons resultados nessas operações, mas nada será suficiente para reduzir a sensação de que vivemos o paradoxo característico de um país incapaz de dar tranquilidade aos cidadãos: temos acesso ao que há de mais moderno, mas, para não chamar a atenção do ladrão, somos obrigados a recorrer ao atraso.

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