Novo recorde no campo

Se nada atrapalhar, safra deve garantir muitos dólares e bom abastecimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 03h00

Todos os brasileiros terão arroz e feijão suficientes, neste ano, se isso depender só do volume colhido. Mas a comida no prato dependerá também da renda familiar, hoje escassa, e da evolução dos preços. A inflação dos alimentos, muito forte por vários meses, arrefeceu há pouco tempo. Além disso, seria tranquilizante um pouco mais de folga na oferta de arroz, um dos produtos mais inflacionados em 2020. Quanto ao quadro geral, é altamente positivo. A safra de grãos deve ser novo recorde, com 273,8 milhões de toneladas de soja, milho, arroz, feijão, algodão e outros produtos. A diferença de 6,5% em relação à temporada anterior equivale a 16,8 milhões de toneladas. Os dados são da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Com o bom desempenho das lavouras de grãos, a agricultura praticamente garante a posição do agronegócio como setor mais vigoroso e mais competitivo da economia brasileira. Essa liderança depende também da produção animal e de produtos de outras categorias, como cana, café e mandioca. O conjunto mantém o agronegócio como fonte principal de receita de exportação e de superávit no comércio de bens.

Nos 12 meses terminados em fevereiro, o setor faturou US$ 100,7 bilhões, 5,4% com as vendas externas, e acumulou saldo positivo de US$ 87,5 bilhões. A receita foi 5,4% superior à dos 12 meses anteriores. O mesmo tipo de comparação apontou superávit 6,7% maior.

As exportações foram lideradas, como tem sido normal, pelo complexo soja (grãos, óleo e farelo), com faturamento de US$ 34,5 bilhões. Em segundo lugar ficaram as carnes, com vendas equivalentes a US$ 17 bilhões.

Quase metade da receita (49,9%) foi proporcionada pelo comércio com o extremo oriental da Ásia. A China se manteve em primeiro lugar entre os países compradores, tendo absorvido produtos no valor de US$ 33,2 bilhões.

Esse fato configura mais um fracasso do presidente Jair Bolsonaro, de seus filhos e do ex-chanceler Ernesto Araújo. Eles foram incapazes, mesmo com suas insistentes grosserias, de espantar a clientela chinesa, ou, no mínimo, de levá-la a reduzir sua participação nas compras de produtos brasileiros. Conseguiram, no entanto, criar algum suspense em relação ao fornecimento de vacinas e insumos farmacêuticos fabricados na China. O novo ministro de Relações Exteriores parece disposto a evitar experiências desse tipo. Falta verificar se o seu chefe admitirá essa mudança na rotina diplomática. 

O principal produto exportado, a soja, continua sendo a maior lavoura, com colheita, já em andamento, estimada em 135,5 milhões de toneladas. Esse volume, se confirmado, será 8,6% maior que o do ano passado, configurando novo recorde. A safra de milho, segunda maior em volume, também deve ser recorde, com 109 milhões de toneladas em três etapas de produção. Também se espera aumento da colheita de trigo, prevista em 6,4 milhões de toneladas, mas o plantio ainda se intensificará a partir de maio.

A produção total de feijão, em três safras, deve atingir 3,3 milhões de toneladas e superar por 2% o volume da temporada anterior.

A safra de arroz, estimada em 11,1 milhões de toneladas, deve ser 0,8% menor que a do ano passado, quando as exportações cresceram e os preços internos estouraram. A produção menor, somada a algum estoque, deverá, segundo a projeção, cobrir sem problema o consumo, estimado em 10,8 milhões de toneladas, e a exportação de 1,1 milhão. O consumo, segundo a estimativa, deve ser pouco inferior aos 11 milhões de toneladas de 2020. Argumento: quando a renda cresce, as famílias tendem a aumentar o consumo de outros produtos (proteínas, por exemplo).

Esse raciocínio envolve uma expectativa de recuperação econômica. Com a recuperação – este é outro pressuposto – as famílias terão renda maior e desviarão parte de seus gastos para produtos nem sempre muito acessíveis. É uma bela aposta. Mas, por enquanto, a economia se arrasta, o desemprego é alto e milhões de famílias dependem do auxílio emergencial para ter alguma comida e sobreviver como for possível.

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