Novos ventos no Uruguai

Vitória de Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, encerra 15 anos de hegemonia da esquerda no país

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 03h00

A vitória nas eleições presidenciais uruguaias de Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, sobre Daniel Martínez, da Frente Ampla, põe fim a 15 anos de hegemonia da esquerda no país.

O atual presidente, Tabaré Vázquez, foi eleito para seu primeiro mandato em 2004, após duas décadas de governo de dois partidos tradicionais de centro-direita, o Partido Nacional e o Colorado. Os resultados da coalizão socialista, que reuniu de comunistas a social-democratas e democratas-cristãos, foram expressivos. Desde 2005, a pobreza caiu de 40% para 8% e o salário mínimo aumentou 55%. Entre 2003 e 2018 o país cresceu em média 4% ao ano e o PIB por habitante foi multiplicado por cinco. Além disso, entre os dois mandatos de Vázquez (2005-2010 e 2016-2019), o ex-guerrilheiro José “Pepe” Mujica (2010-2015), que chegou a ter 83% de aprovação, promulgou uma série de leis caras à esquerda, como a legalização do casamento gay, do aborto e da maconha.

Mas havia sinais de desgaste. Muitos eleitores interioranos da Frente Ampla não receberam bem essa agenda progressista dos costumes. Além disso, a economia vinha se desacelerando. A taxa de desemprego chegou a 9,5% e as classes baixas encontram dificuldades de acesso à moradia. Há insatisfação geral em relação ao custo de vida e o empresariado se queixa das pressões fiscais. “O Uruguai faz parte desse padrão de sociedades irritadas e infelizes que viram um aumento no poder de compra e, devido a esse aumento, começaram a exigir mais”, disse o cientista político da Universidade de Montevidéu Gerardo Caetano.

“É bom mudar”, foi um dos slogans de Lacalle Pou. Entre suas promessas de campanha estava a redução das despesas do Estado, com a garantia de não aumentar impostos. Apesar de ter ficado dez pontos porcentuais abaixo dos 39% de Martínez no primeiro turno, soube costurar uma aliança com outros cinco partidos, que variam do centro à extrema direita, enquanto a Frente Ampla não logrou o apoio de nenhum dos outros dez partidos. Habilmente, sua “coalizão multicolor” tranquilizou os eleitores centristas, com um documento em que se comprometia a não alterar as leis relativas ao aborto ou ao casamento homossexual, ao mesmo tempo que satisfez os conservadores enfatizando o combate à criminalidade, principal inquietação dos uruguaios, após um aumento de 45% dos casos de homicídio entre 2017 e 2018. Some-se a isso o fato de Martínez não ter o mesmo carisma de seus antecessores.

Ainda assim, foi possivelmente o pleito mais acirrado do Uruguai desde a redemocratização em 1985, após 12 anos de ditadura militar. Tanto que a vitória, por 48,71% contra 47,51%, só foi declarada pela Justiça Eleitoral após a contagem dos votos dos mesários e militares que trabalharam nas eleições.

O novo Parlamento é mais fragmentado e não garante maioria para o futuro governo. A Frente Ampla manteve sua condição de partido dominante, com forte apoio na sociedade civil, sobretudo nas cidades. “O setor educativo, o mundo da cultura, os sindicatos, todos estes setores mantiveram seu apoio à Frente Ampla”, disse o cientista político Jorge Lanzaro. “Ela seguirá sendo o partido de esquerda maior, mais consistente e mais organizado da América Latina.”

Considerando a instabilidade e animosidade que se alastra pelo continente, como se vê nos protestos violentos no Chile, Peru, Colômbia ou Bolívia, talvez o maior vitorioso na disputa do pequeno país de 3,4 milhões de habitantes tenha sido a normalidade democrática. Logo após a vitória, Martínez felicitou o adversário pelo Twitter, sem deixar de adverti-lo: “Continuaremos a defender a democracia com mais força do que nunca”. O vencedor prontamente agradeceu e declarou: “Quase metade dos eleitores votou por um candidato, a outra metade e mais um pouco por outro candidato. Hoje o resultado confirma que o próximo governo não pode mudar uma metade do país pela outra. Precisamos unir a sociedade. Devemos unir os uruguaios”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.