Nuvem de suspeição na Alerj

O caso da Alerj estaria circunscrito ao Rio de Janeiro não fosse um dos envolvidos o primogênito do presidente da República

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2019 | 03h00

Além de Fabrício Queiroz, ex-funcionário do gabinete do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), 28 servidores da Casa realizaram movimentações financeiras “atípicas” entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, de acordo com relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelado pelo Estado. No período, Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão. O ex-assessor de Flávio Bolsonaro declarou uma renda mensal de R$ 23 mil, somando a aposentadoria que recebe da Polícia Militar e o salário que recebia na Alerj, incompatível com o montante apurado.

O número de envolvidos e a similitude do método sugerem, de acordo com a Polícia Federal, a existência de um esquema de nomeação de assessores parlamentares fantasmas na Alerj para devolução integral ou de parte de seus salários para os gabinetes dos contratantes. O que é feito deste dinheiro ainda não se sabe, mas a necessidade de esclarecimentos cabais só aumenta à medida que o tempo passa.

O relatório do Coaf revelou que a conta bancária de Fabrício Queiroz recebeu depósitos de nove funcionários e ex-funcionários do gabinete do deputado Flávio Bolsonaro. O curioso é que mais da metade desses depósitos foi feita no mesmo dia de pagamento da Alerj, ou no máximo três dias depois. O mesmo padrão de transações pôde ser observado nas movimentações financeiras de outros 13 dos 29 servidores da Casa que aparecem no relatório.

O Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro investiga o caso. Desde que o relatório do Coaf foi revelado pelo Estado, no fim do ano passado, os procuradores tentam colher os depoimentos de Fabrício Queiroz, de sua mulher, de suas duas filhas – as três também são ex-funcionárias do gabinete do deputado Flávio Bolsonaro na Alerj – e o do senador eleito, este com prerrogativa para escolher o dia e a forma em que será ouvido. Por variadas razões, nenhum deles pôde depor ao MP, ainda que uma emissora de TV não tenha encontrado empecilhos para a realização de entrevistas.

O caso da Alerj estaria circunscrito ao Rio de Janeiro não fosse um dos envolvidos o primogênito do presidente da República.

athalia Melo de Queiroz, uma das filhas de Fabrício Queiroz, também foi lotada no gabinete do presidente Jair Bolsonaro quando ele era deputado federal, fato que impõe a oportuna explicação de todos os envolvidos para que seja dissipada qualquer nuvem de suspeição que possa pairar sobre o senador eleito Flávio Bolsonaro ou mesmo sobre o governo federal. Nathalia é uma conhecida professora de educação física no Rio de Janeiro. Não obstante, o gabinete do presidente Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, em Brasília, não anotou qualquer ausência dela ao trabalho. Nada indica que ela não possa ter realizado a distância o trabalho para o qual foi contratada, mas uma explicação é necessária para o presidente poder tocar com tranquilidade a agenda governamental que lhe toma tempo e energia.

O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Eduardo Gussem, indicou que poderá encerrar a investigação sobre as movimentações “atípicas” de Queiroz e propor ação penal contra o ex-assessor sem que ele preste depoimento. Por meio de seus advogados, Queiroz disse que “irá depor tão logo seja autorizado pelos médicos”. Ele se recupera de uma cirurgia em São Paulo.

O fato de o suposto esquema de contratação de assessores fantasmas na Alerj implicar um senador eleito, filho mais velho do presidente da República, não é a única razão para que o caso seja devidamente esclarecido. A ser verdadeira, a existência de um esquema dessa natureza macula, antes de tudo, a boa representação parlamentar. Em última análise, empobrece o trabalho do parlamentar, em prejuízo da sociedade, pela contratação de funcionários de baixa qualificação para a boa remuneração que recebem, a fim de gerar o excedente a ser repassado a quem o contratou. É uma prática duplamente grave que demanda pronto esclarecimento.

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