O alarme estridente do BC

Juros continuam em 2%, mas Copom alerta para risco importante de alta da inflação.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 03h00

Atenção, governo, mercado e cidadãos em geral: há fortes sinais de perigo no front da inflação e pode ser necessário, em breve, apertar a política de juros. Esta é a principal mensagem transmitida pelo Banco Central (BC) em comunicado sobre a última reunião de seu Comitê de Política Monetária, o Copom. Nessa reunião se decidiu mais uma vez manter a taxa básica em 2% ao ano, mas essa estratégia está chegando ao limite. Há também um recado implícito – e muito grave. Se for preciso mexer no custo do dinheiro e encarecer o crédito, será enfraquecido o único instrumento de estímulo econômico em operação neste momento.

Qualquer outro dispositivo dependeria da equipe econômica, ainda em busca de meios para sustentar a recuperação. O auxílio emergencial acabou em 31 de dezembro. As ações excepcionais permitidas na fase de calamidade pública estão encerradas. Janeiro está no fim e ninguém pode dizer com alguma segurança, até agora, como se combinarão em 2021 o reparo das finanças oficiais, a criação de empregos e a expansão dos negócios.

Com juros mais altos a dívida pública ficará mais cara, cada rolagem terá custo maior e será mais difícil moderar seu crescimento. Isso reduzirá o espaço, já muito estreito, de administração das finanças públicas. O governo poderá precisar de maior austeridade, mas isso dependerá dos interesses eleitorais do presidente da República. Decisões pouco austeras poderão ser facilitadas, segundo avaliação corrente no mercado, se o candidato do presidente Jair Bolsonaro, Arthur Lira, chegar à presidência da Câmara dos Deputados.

O mercado pode elevar seus juros antes de um aumento da taxa básica pelo Copom. Também para isso os diretores do BC, membros do comitê, vêm chamando a atenção há meses. O custo do financiamento, especialmente do Tesouro, é em grande parte determinado pelas expectativas de evolução das contas públicas e da inflação. Essas expectativas podem piorar sensivelmente, se houver fortes sinais de abandono da responsabilidade fiscal.

Por enquanto, segundo o Copom, é possível manter os juros básicos em 2% ao ano, o nível mais baixo da série histórica. As estimativas ainda apontam inflação compatível com as metas oficiais até 2022. Mas nenhuma decisão está garantida. A reunião de quarta-feira oficializou o abandono do forward guidance, ou orientação prospectiva, recurso de comunicação mantido por vários meses.

Pelo forward guidance, o Copom indicava a intenção de manter o estímulo monetário enquanto certas condições perdurassem. Essas condições sumiram. As expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação do cenário básico, “estão suficientemente próximas da meta de inflação”, considerado o horizonte relevante, correspondente aos anos de 2021 e 2022. Mais que isso: aumentou o risco de estouro das metas.

No jargão do BC, “as diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta de inflação”. Em outras palavras: os núcleos de inflação, calculados com exclusão de certos preços mais sujeitos a instabilidades, indicam tendência preocupante, com risco maior de superação dos limites oficiais.

De imediato, a alta das cotações internacionais pressiona os preços internos dos alimentos e pode afetar também os preços dos combustíveis. Isso pode elevar a inflação nos próximos meses. O Copom continua avaliando esses choques como temporários, embora sejam mais persistentes do que se esperava. Mas o plano é seguir monitorando esses choques e seus efeitos.

Se a inflação se agravar, as famílias terão dificuldades adicionais para manter o nível de consumo, e isso afetará a demanda de vários tipos de produtos industriais e de serviços. Pior, ainda, se o surto inflacionário for puxado pelos preços da comida. Se o mercado se assustar com tolices cometidas em Brasília, o dólar poderá subir e aumentar o desajuste dos preços. O Copom se absteve de explicitar estas advertências finais. Mas no governo, espera-se, deve haver gente preparada para percebê-las.

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