O alto custo da má reputação

A má reputação do Brasil quando se trata de meio ambiente pode custar bilhões de dólares em perdas de investimentos e de exportações

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 03h00

A má reputação do Brasil quando se trata de meio ambiente pode custar bilhões de dólares em perdas de investimentos e de exportações. O perigo já foi percebido no governo, mas falta conferir se o presidente Jair Bolsonaro, responsável principal pela piora da imagem brasileira, está disposto a mudar seu comportamento. O alerta foi repetido em entrevista ao Estado pelo cientista político Christopher Garman, diretor-geral para as Américas da Eurasia, uma consultoria de reputação global com sede nos Estados Unidos. Fundos estão sendo pressionados, lembrou Garman, para incluir a consideração de riscos climáticos em suas estratégias de investimento. O mesmo tipo de pressão, como já se notou em Brasília, pode afetar o comércio, prejudicando o setor mais competitivo da economia brasileira, o agronegócio.

A entrevista do diretor da Eurasia é um testemunho especialmente importante. Novas medidas, como a recente criação do Conselho da Amazônia, dificilmente produzirão bons efeitos para a imagem brasileira, advertiu o consultor, se o presidente Bolsonaro continuar atacando a mídia internacional, personalidades como Greta Thunberg e a “indústria da multa” do meio ambiente.

Nesse caso, manchetes negativas continuarão alimentando a má reputação do País e empresários terão receio de aplicar dinheiro no Brasil. A crise de credibilidade, acrescentou, poderá afastar principalmente novos investimentos. Mesmo sem a retirada de recursos já aplicados na economia brasileira, haverá perdas importantes.

Para a opinião internacional, o aumento das queimadas na Amazônia, no ano passado, materializou a nova política do governo central, contrária às preocupações ambientalistas valorizadas na maior parte dos países desenvolvidos e emergentes. Não se cumpriu até hoje a ameaça de abandonar o Acordo de Paris sobre o clima. As palavras e atitudes do presidente e de vários de seus auxiliares foram, no entanto, uma convincente demonstração de desprezo às preocupações com a preservação ambiental.

A última dessas manifestações foi a declaração infeliz do ministro da Economia, Paulo Guedes, na recente reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Suas palavras, apontando a pobreza como pior inimiga do meio ambiente, tiveram repercussão e foram repetidas, na abertura de um debate sobre a Amazônia, como síntese da posição do governo brasileiro. O ministro alegou ter sido mal interpretado, mas a interpretação errada – se tiver sido esse o caso – foi cometida por grande número de pessoas intelectualmente qualificadas.

Na mesma reunião, a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi interrogada por um jornalista sobre a possibilidade de aprovação final do acordo entre o bloco europeu e o Mercosul. Essa aprovação depende da aceitação formal por todos os países dos dois blocos. O assunto continua aberto, respondeu a dirigente, referindo-se, claramente, às dúvidas ainda existentes sobre a disposição brasileira de respeitar as condições ambientais valorizadas nos países da União Europeia.

A percepção dos perigos comerciais e financeiros já se manifestou em Brasília. Um alerta foi dado pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em reunião do Conselho de Governo, em 21 de janeiro. Investimentos, advertiu, poderão ser prejudicados pelo debate ambiental. Comentário semelhante foi feito numa entrevista à imprensa, no dia seguinte, pelo secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, segundo o Estado.

A sensatez do presidente do BC e do secretário do Tesouro fará pouca diferença, no entanto, se o presidente da República e os ministros do Meio Ambiente e de Relações Exteriores continuarem difundindo a imagem de um Brasil devastador de florestas e envenenador do meio ambiente. A imagem é falsa, até porque o agronegócio brasileiro é poupador de terras e, portanto, de florestas. Mas a má reputação brasileira interessa aos defensores do protecionismo agrícola, especialmente na Europa. É preciso explicar esses pontos a algumas autoridades em Brasília.

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