O alto índice de abstenção do Enem

Faltas devem agravar problemas do País para formar capital humano para se desenvolver.

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 03h00

Apesar de o segundo dia de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 ter transcorrido sem problemas logísticos, o índice de abstenção, que chegou a 55,3%, foi ainda maior do que o do primeiro dia, que ficou em 51,5%. Os dois índices foram os mais altos desde a criação do Enem, em 1998. Hoje o exame é a principal porta de entrada no ensino superior público no País. 

Ao todo, foram quase 5,7 milhões de estudantes inscritos, dos quais cerca de 3 milhões não compareceram. Até agora, o maior número de faltas havia sido registrado em 2009, com um índice de abstenção de 37,7%. Na edição do Enem de 2019, 23% dos inscritos não compareceram aos locais de provas. 

Embora as autoridades educacionais tenham afirmado que a realização do Enem foi um sucesso, apesar das dificuldades causadas pela pandemia, a realidade é bem diferente. As provas foram aplicadas em 207 mil salas de aula distribuídas em 14 mil locais – números considerados insuficientes por gestores escolares. Na realidade, as classes foram planejadas com capacidade de até 80%, e não de 50%, como o Ministério da Educação (MEC) havia prometido à Justiça, após ter sido acionado pelo Ministério Público Federal. Ao justificar o descumprimento dessa promessa, o ministro Milton Ribeiro invocou a necessidade de redução de gastos em tempos de crise econômica. “Imagine se o governo tivesse contratado tudo (salas para todos os inscritos)? Imagine o valor do dinheiro que haveríamos de usar”, afirmou. 

O insólito argumento do ministro, que sabia que o excesso de alunos em classe desestimularia muitos inscritos a fazer as provas num período de pandemia, é só um dos lados do problema. O outro lado é o fato de que muitos dos 3 milhões de estudantes que faltaram ao Enem desistirão de cursar o ensino superior, trocando a sala de aula pelo mercado de trabalho, como preveem os gestores escolares. Contudo, como a velocidade das transformações tecnológicas vem reconfigurando o mundo do trabalho, nele só terão vez jovens com formação especializada e capacidade técnica – e esse não é o caso dos estudantes que faltaram ao Enem. 

Por falta de preparo, eles encontrarão emprego apenas na economia informal, gerando assim menos benefícios para a sociedade. Isso já havia sido previsto em relatório do Banco Mundial divulgado no fim do ano passado, que advertia o governo do presidente Jair Bolsonaro do risco de as novas gerações de brasileiros chegarem ao mercado de trabalho com apenas 50% de seu potencial produtivo desenvolvido.

Esse relatório, a exemplo de outros que foram feitos na mesma linha e na mesma época, partiu da premissa de que uma educação com qualidade é um investimento de longo prazo, cujos efeitos sociais e econômicos se tornam um patrimônio da sociedade. Em outras palavras, para o Banco Mundial, jovens bem escolarizados são o principal ativo que um país possui. E é justamente essa ideia que, desde a ascensão de Bolsonaro ao Palácio do Planalto, vem sendo desprezada pelos ministros que se sucedem na chefia do MEC. 

Ao se levarem por pautas ideológicas e religiosas, tanto o atual ministro como seus antecessores deixaram de lado uma questão fundamental, que será agravada ainda mais pelo alto índice de abstenção do Enem de 2020. Trata-se da formação de capital humano e de seu impacto sobre o nível de produtividade e competitividade na economia brasileira. Apesar dos altos níveis de desemprego na economia formal, as empresas alegam que, por causa da baixa qualificação média da população, não estão conseguindo preencher vagas que só podem ser ocupadas por quem tem qualificação profissional e competências específicas.

Esse é o triste cenário revelado pelo Enem de 2020: enquanto na economia o Brasil tem de correr contra o tempo, dada a urgência para superar deficiências básicas de conhecimento e formação profissional, na educação o alto índice de faltas nos dois dias de provas sinaliza que o País vem perdendo a corrida educacional, tornando-se incapaz de formar o capital humano de que tanto necessita. 

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