O ambiente de negócios na pandemia

Governo contribui para deterioração da imagem do País para investidores internacionais

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2021 | 03h00

O Brasil é a maior economia da América Latina e a 12.ª do mundo, mas segue patinando nos últimos pelotões globais em termos de ambiente de negócios. Segundo o Ranking Global de Competitividade anual da escola de administração suíça IMD, após quatro anos de ligeira melhora, o País caiu uma posição e está em 57.º lugar entre 64 países.

O ranking deste ano reflete a resistência das economias em face da pandemia. Em geral, os países da Europa e Ásia se saíram melhor. “O relatório verificou que qualidades como investimento em inovação, digitalização, benefícios sociais e liderança resultante em coesão social ajudaram as economias a amortecer melhor a crise.” Ou seja, quase ponto por ponto um receituário daquilo que o Brasil não fez.

A única exceção talvez seja o esteio social, e o relatório reflete isso. Apesar das tergiversações do governo, o Congresso aprovou medidas emergenciais de apoio a famílias e empresas, o que – mais as exportações de commodities – respondeu pela melhora no indicador de desempenho econômico, da 56.ª posição, em 2020, para a 51.ª, em 2021. Mas, se isso refreou uma deterioração ainda maior da competitividade do País a curto prazo, nem de longe basta para sustentá-la, muito menos alavancá-la a médio prazo.

“A inovação é a pedra angular de uma performance de longo prazo, com a educação e outros fatores orientando tanto uma força de trabalho produtiva quanto a pesquisa.” São elementos capitais para explicar o bom desempenho dos líderes do ranking, como Suíça, os países nórdicos ou Cingapura. Já a educação brasileira é considerada a pior entre todos os países.

Em termos de qualidade dos gastos do governo, o Brasil também está na última posição. A procrastinação das reformas administrativa e tributária e a elevação da dívida pública também contribuem para que o País seja considerado o terceiro pior no quesito políticas governamentais.

O mau desempenho indicado pela IMD é corroborado pela radiografia do Banco Mundial Doing Business Subnacional Brasil 2021. O estudo verificou boas práticas em Estados de diferentes níveis de renda, regiões e tamanhos, sugerindo uma oportunidade de troca de experiências. Mas mesmo os líderes nos cinco principais critérios ainda estão abaixo da média dos países da OCDE.

Segundo a especialista em desenvolvimento do setor privado do Banco Mundial, Laura Diniz, a complexidade de negócios e a burocracia são desafios em todos os Estados. As principais causas incluem a falta de coordenação entre as agências envolvidas nos processos e uma implementação desigual e fragmentada dos programas de reforma. Não surpreende que no Ranking de Competitividade o Brasil esteja na 60.ª posição em termos de coesão social.

“Sem entrar no lado político”, disse ao Valor o pesquisador do IMD José Caballero, “desde 2019 temos notado uma queda na imagem do Brasil no exterior, na percepção dos executivos, provavelmente por questões de uma fraqueza nas instituições, enorme burocracia, corrupção, falta de transparência e preocupação com o Estado de Direito.”

A imagem ou “marca” do País amarga a 61.ª posição. Mesmo que Caballero não tenha tratado do aspecto político, é evidente que, junto a mazelas estruturais e exógenas aos negócios, como a criminalidade ou a desigualdade, a conjuntura de um governo retrógrado em questões de alta sensibilidade para a comunidade global – como a preservação ambiental, a gestão da pandemia ou a proteção das minorias – contribui para a deterioração da imagem do País com os investidores internacionais. No indicador cultura nacional, o Brasil despencou 16 posições.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, continua a ecoar promessas de uma “primavera liberal”, quando os dados escancaram um interminável inverno. Em franco alheamento da realidade, Guedes garante que o Brasil saltará do 124.º lugar no ranking global do Doing Business para os Top50. “A economia brasileira está de novo em uma rota surpreendente”, disse há poucos dias. Será preciso combinar não só com os “russos”, mas com todos os demais executivos internacionais.

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