O apagão nos sistemas do CNPq

Problema deixa claro como o atual governo despreza a educação, a ciência e a pesquisa

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 03h00

Apesar de não ter havido comprometimento dos dados arquivados, o apagão nos sistemas de informática do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) é mais demonstração dos graves problemas que as áreas de ensino e pesquisa estão sofrendo desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro.

Só neste ano, o CNPq – que é a maior e mais importante agência de fomento à pesquisa no País – já foi obrigado a promover um corte drástico em seu programa de bolsas de pós-graduação no País e no exterior, por causa de cortes orçamentários. E agora, em decorrência do apagão nos sistemas de informática do órgão, a comunidade acadêmica está há quase uma semana sem poder acessar a Plataforma Lattes, que é um banco de currículos e de informações detalhadas sobre a produção acadêmica e científica no País. 

A Plataforma Lattes é um site que reúne toda a trajetória acadêmica dos pesquisadores brasileiros e de pesquisadores estrangeiros que têm alguma relação com as universidades brasileiras. A permanente atualização do currículo é uma exigência feita a todos os que atuam no ensino superior e no setor de desenvolvimento tecnológico, especialmente na hora de se candidatar a projetos e a vagas de mestrado e doutorado. 

A Plataforma Lattes cataloga artigos, ensaios, livros, entrevistas, palestras e viagens profissionais de cada pesquisador e serve para várias finalidades. Ela é o principal instrumento para o julgamento dos pedidos de bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado e de solicitações da comunidade acadêmica para a realização de pesquisas e eventos científicos. Também é usada pelos meios de comunicação para identificar quem pode dar entrevistas sobre temas técnicos de interesse público e pelas bancas examinadoras nos concursos de ingresso e progressão na carreira acadêmica. Permite a coordenação de estudos entre diferentes grupos de pesquisa espalhados pelo Brasil e pelo mundo. E ainda serve de base para a avaliação, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), de todo o sistema brasileiro de pós-graduação.

Além da plataforma Lattes, o apagão nos sistemas de informática do CNPq atingiu a Plataforma Carlos Chagas, que reúne informações de grupos de pesquisa e bolsistas do CNPq, e o Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, que é uma base de dados importante para conhecer quais especialistas estão trabalhando em cada área do conhecimento. São informações que interessam não só à comunidade acadêmica, mas, igualmente, à iniciativa privada. O apagão também atingiu sistemas internos do CNPq, que são utilizados pelos diferentes comitês de assessoria e de consultoria ad hoc do órgão. 

Desde o momento em que detectaram dificuldades para acessar essas plataformas, pesquisadores e cientistas advertiram para o risco de perda de todas as informações armazenadas durante as últimas décadas. Foi por isso que, antes mesmo de informar os problemas que provocaram o apagão dos sistemas de informática, a direção do CNPq divulgou uma nota afirmando que dispunha de backup de todos os seus arquivos e informando que não ocorreram perdas de informações. E, para tranquilizar a comunidade científica, disse que o pagamento das bolsas não será afetado e os prazos relacionados a projetos e entregas de relatórios serão prorrogados. 

A direção do CNPq fez o que se esperava, agindo de modo transparente e tomando as providências necessárias para que seus sistemas voltassem a funcionar. Chegou, inclusive, a reconhecer que não sabia quando a situação estaria normalizada. O mesmo, porém, não aconteceu com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, ao qual o órgão é vinculado. A exemplo do que ocorreu por ocasião do drástico corte de bolsas, no primeiro semestre, a pasta se omitiu. 

Infelizmente, esta tem sido a sina das áreas que são norteadas pela reflexão e pelo debate no âmbito de um governo que, sob o pretexto de defender a tradição, é declaradamente inimigo da educação, da ciência e da pesquisa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.