O ataque da desinformação

Tempos atuais trouxeram desafios em proporções e velocidade até há pouco impensáveis

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 03h09

Sempre houve boatos e mentiras gerando desinformação na sociedade. É um fenômeno conhecido e, ao longo do tempo, foram desenvolvidas estratégias, em diversos âmbitos e com alcances distintos, para combatê-lo. Por exemplo, um princípio que norteia todo o tema relativo à qualidade da informação refere-se à liberdade de expressão e de imprensa. A livre circulação de ideias e informações é um eficaz antídoto contra a desinformação.

O fenômeno é antigo, mas os tempos atuais trouxeram desafios em proporções e numa velocidade até há pouco impensáveis. A questão não é apenas a incrível capacidade de compartilhamento instantâneo, dada pelas redes sociais e os aplicativos de mensagem, o que é positivo, mas traz evidentes riscos. Muitas vezes, uma informação é compartilhada milhares de vezes antes mesmo de haver tempo hábil para a checagem de sua veracidade. O desafio é também oriundo do avanço tecnológico das ferramentas de edição de vídeo, áudio e imagem. Cada vez mais sofisticadas e, ao mesmo tempo, mais baratas e acessíveis, elas são capazes de falsificar a realidade de forma muito convincente.

Para debater esse atual cenário, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) promoveu em São Paulo o seminário Desinformação: Antídotos e Tendências. Na abertura do evento, Marcelo Rech, presidente da ANJ, lembrou que o vírus da desinformação não é difundido apenas por grupos ou indivíduos extremistas. Também alguns governos têm se utilizado dessa arma para desautorizar coberturas inconvenientes. Tenta-se fazer com que apenas a informação oficial circule.

O diretor da organização Witness, Sam Gregory, falou sobre as deepfakes e outras tecnologias que se valem da inteligência artificial (IA) para criar vídeos, imagens e áudios falsos. Houve um grande avanço tecnológico na área, o que afeta diretamente a confiabilidade das informações na esfera pública. O vídeo de um político fazendo determinada declaração pode ser inteiramente falso. Parece não haver limites para as manipulações.

Diante desse cenário, que alguém poderia qualificar como o “fim da verdade”, Sam Gregory desestimulou qualquer reação de pânico ou desespero, que seria precisamente o que os difusores da desinformação almejam. Para Gregory, o caminho é melhorar a preparação das pessoas e das instituições, ampliando a “alfabetização midiática” – prover formação para que cada pessoa fique menos vulnerável às manipulações –, aperfeiçoando as ferramentas de detecção de falsidades e aumentando a responsabilidade das plataformas que disponibilizam esses conteúdos.

O segundo painel abordou a desinformação nas eleições. Angela Pimenta, diretora de operações do Projor, comentou que a atual desinformação é muito mais ampla do que a simples informação falsa. Trata-se de um cenário de poluição informacional em escala global, que distorce o debate público e fragiliza a percepção sobre a verdade factual. Além da manipulação de conteúdo, a desinformação é difundida por meio de mensagens com conexões ou contextos falsos.

Ana Cristina Rosa, assessora do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tratou das campanhas massivas de desinformação contra o sistema eleitoral nas eleições passadas. A novidade de 2018 foi que as mentiras não se dirigiram apenas contra os adversários políticos. Houve larga produção de conteúdo contra o próprio TSE, obrigando a Justiça Eleitoral a montar uma operação específica para esclarecer as falsidades difundidas; por exemplo, sobre uma suposta sala secreta do TSE na qual se alteravam os dados coletados nas urnas eletrônicas.

Também foram apresentadas no seminário várias iniciativas de checagem de informações, como o Projeto Comprova, do qual participa o Estado. Há um consenso de que o atual cenário, mesmo com todos os desafios, tem aspectos muito positivos. Por exemplo, todos os princípios norteadores do jornalismo, como o de independência e o de rigor na apuração, têm sua importância reafirmada. O caminho para combater a desinformação continua sendo o mesmo: a informação de qualidade.

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