O BC puxa o freio de mão

O mercado tem baixado as projeções de crescimento, mas o Copom exibe otimismo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 03h00

A forte alta dos preços internos, a piora das expectativas e o risco de uma “reflação” internacional bastariam para justificar a alta de juros, iniciada pelo Banco Central (BC) na semana passada, em reunião de seu Comitê de Política Monetária (Copom). A taxa básica passou de 2% para 2,75% ao ano e um novo aumento, de igual magnitude, está previsto para a próxima reunião, programada para 4 e 5 de maio. Mas os membros do comitê, formado por diretores do banco, insistem numa avaliação positiva das condições econômicas, embora admitindo muita incerteza quanto ao ritmo de atividade nos dois primeiros trimestres. Os dois fatores – piora do quadro inflacionário e reativação da economia – são invocados para explicar o aperto das condições de crédito.

A mudança de rumo foi decidida porque o cenário “já não prescreve um grau de estímulo extraordinário”, segundo explicação resumida na ata das deliberações da semana passada. Daí a decisão de iniciar uma “normalização parcial da taxa de juros”. A reviravolta era esperada, no mercado, mas a maior parte das previsões era de aumento na faixa de 0,25 a 0,50 ponto porcentual. A decisão afinal anunciada – duas altas de 0,75 ponto num intervalo de um mês e meio – deve atender, segundo a ata, a duas necessidades: 1. frear a inflação de 2021, repondo a alta de preços no caminho da meta, de 3,75% neste ano; 2. evitar o contágio e manter a ancoragem das expectativas para 2022.

A preocupação com as pressões inflacionárias é facilmente compreensível. Em fevereiro, a inflação acumulada em 12 meses bateu em 5,20%, quase atingindo o limite de tolerância, de 5,25%. Além disso, as cotações internacionais das commodities têm afetado os preços internos, encarecendo principalmente alimentos e combustíveis.

O dólar caro também tem influenciado a formação de preços, mas este detalhe é pouco explorado na ata. No entanto, o câmbio, importante sinalizador das inquietações do mercado, é fortemente influenciado pelos fatos políticos e, de modo especial, pelas ações e palavras do presidente da República. A ata menciona as oscilações da confiança na política fiscal, ao comentar o balanço de riscos, mas, diplomaticamente, fica longe de referências mais claras aos fatos do dia a dia.

O Copom continua a classificar como temporários os choques de preços, repetindo o diagnóstico de outras atas. Também promete, como há meses, seguir atento à evolução do quadro. São outros, no entanto, os aspectos mais estranhos da ata, já perceptíveis no comunicado, bem mais breve, divulgado depois da reunião do último dia 17.

Embora mencionem uma “incerteza acima da usual” sobre o ritmo da atividade, os membros do Copom avaliam positivamente a evolução desde o trimestre final de 2020 e as perspectivas dos próximos meses. Segundo a ata, a ociosidade vem diminuindo mais velozmente do que se esperava e a retomada será “robusta” no segundo semestre, “na medida em que os efeitos da vacinação sejam sentidos de forma mais abrangente”.

A referência à vacinação como fator importante para a economia é mero bom senso – algo escasso no Palácio do Planalto, onde o presidente continua afirmando a prioridade dos negócios em relação à saúde. O mesmo bom senso é perceptível na decisão de dar um tranco nas expectativas inflacionárias. Mas faltam argumentos para justificar o otimismo em relação ao ritmo da economia.

No mercado, as avaliações sobre a retomada continuam cautelosas. Em quatro semanas, a mediana das projeções de crescimento econômico neste ano baixou de 3,29% para 3,22%, segundo a pesquisa Focus, conduzida pelo próprio BC. A expectativa para 2022 está em 2,39%. Quatro semanas antes estava em 2,50%. A retomada do auxílio emergencial, a partir de abril, melhora um pouco o cenário, mas falta ver como as projeções serão recompostas. Em resumo, a inflação em alta pode ter sido uma boa razão para o abandono dos juros muito baixos, mas a economia ainda necessita de estímulos, e é difícil dizer se o auxílio emergencial por quatro meses será suficiente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.