O Brasil atrás das potências dinâmicas

OCDE mostra o País crescendo menos que a média mundial e, contra Bolsonaro, o valor econômico da atenção à saúde

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 03h00

Com avanço de 5%, o Brasil cresce menos que a economia mundial neste ano e assim continuará em 2022 e 2023, estima a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, seu país está entre os líderes do crescimento global, depois de uma recuperação em V, mas esse prodígio é desconhecido no mercado e nas entidades multilaterais. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescerá 1,4% no próximo ano e 2,1% no seguinte, de acordo com as Perspectivas Econômicas da OCDE. As taxas estimadas para o PIB global nesses três anos são 5,6%, 4,5% e 3,2%. Para os 38 países da organização, as médias projetadas são 5,3%, 3,9% e 2,5%. No mercado brasileiro as expectativas, bem menos otimistas, são de expansão de 4,78% em 2021, seguida de 0,58% e 2% nos períodos seguintes.

A recuperação global continua, mas perdeu impulso e vem sendo marcada por crescente desequilíbrio entre setores, grupos sociais e países, segundo a OCDE. A forte retomada inicial vem sendo prejudicada por problemas de abastecimento, encarecimento de insumos, novas pressões inflacionárias e efeitos continuados da pandemia. Com a recuperação do emprego e o aumento da vacinação, a retomada global deverá ser mais segura a partir do próximo ano. Mas o cenário poderá mudar com o surgimento de variantes mais transmissíveis da covid-19, eventual aumento da inflação ou agravamento de problemas como a crise do setor imobiliário na China.

Essencial para a recuperação neste ano, a vacinação continua sendo uma prioridade e é preciso estendê-la aos países mais pobres e menos imunizados. A importância da vacinação para a retomada brasileira é enfatizada no primeiro parágrafo do capítulo a respeito do Brasil. Segundo os números e a análise da OCDE, cuidar da saúde foi um passo decisivo para a reativação dos negócios. Essa análise mostra o oposto do discurso repetido muitas vezes pelo presidente Jair Bolsonaro – cuidar da economia mesmo com risco de morte para milhares de brasileiros. Preocupação com a segurança, segundo ele, seria mimimi de maricas.

Facilitada pela vacinação, a reação brasileira foi sustentada inicialmente pelo consumo e pelo investimento privados. As exportações foram beneficiadas pela recuperação global, pela forte procura de produtos básicos e pelo câmbio desvalorizado. Mas a retomada foi enfraquecida por gargalos de abastecimento, redução do poder de compra dos consumidores, juros em alta e incertezas sobre a política econômica. Essas incertezas, somadas ao risco fiscal crescente, afetam o preço do dólar e aumentam a inflação, assinala o relatório.

O estudo recomenda investimentos para elevar o potencial de crescimento econômico, mas, para manter as contas públicas em condição sustentável, o governo, segundo a OCDE, terá de aumentar a eficiência dos gastos, hoje prejudicada por fatores como as despesas obrigatórias e sujeitas à indexação. É difícil dizer se alguma reforma com essa orientação poderá prosperar num ano de eleições. 

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