O Brasil diante da inflação mundial

Por várias razões, desajuste de preços espalha-se por dezenas de países avançados e emergentes, e inflação de dois dígitos deixa de ser raridade, tornando-se fenômeno internacional

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2022 | 03h00

Com inflação de 11,9% nos 12 meses até junho, o Brasil tem agora a companhia de nações avançadas e emergentes também assoladas pela alta de preços em dois dígitos. O aumento anual do custo de vida chegou a 10,3%, em média, nos 38 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O desarranjo foi causado principalmente pelo aumento global dos preços da alimentação e da energia. Ainda marcado pelos efeitos econômicos da pandemia, o mercado internacional tem sido afetado também pela guerra na Ucrânia, grande exportadora de grãos. Mas o surto inflacionário é em parte explicável pelo afrouxamento das políticas fiscais em 2020 e 2021, na tentativa inicial de estimular a recuperação das atividades deprimidas na crise sanitária. Disseminados por todos os continentes, os danos da inflação se distribuem, no entanto, de forma desigual, atingindo mais duramente as populações mais pobres.

A onda inflacionária é a maior registrada pela OCDE desde junho de 1988. Os preços ao consumidor subiram 10% ou mais, em 12 meses, em 13 países da organização, cerca de um terço do total. Com inflação de 78,6% nesse período, a Turquia exibiu um desajuste muito maior que o dos demais membros da entidade.

Em outros 13, incluídos a Bélgica (9,6%), o Reino Unido (8,2%) e os Estados Unidos (9,1%), a alta de preços ficou na faixa de 8% a 10%, com números dificilmente imagináveis, em outras condições, na maior parte do mundo capitalista. O Japão, como sempre, ficou longe do ritmo inflacionário internacional, com alta de preços de 2,4%, já um tanto elevada para os padrões japoneses.

No Grupo dos 20 (G-20), o maior desarranjo foi exibido, como tem ocorrido há vários anos, pela Argentina, com inflação anual de 64%. O Brasil ficou em segundo lugar, com 11,9% de variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A África do Sul ocupou o terceiro lugar, com 7,4%.

O custo da energia, um dos itens principais da pauta eleitoral do presidente Jair Bolsonaro, subiu 40,7%, em média, nos países da OCDE e 42% na zona do euro, enquanto a alimentação, nas duas áreas, encareceu 13,3% e 10,4%. No Brasil, as tarifas de energia elétrica residencial aumentaram 2,16% nesse período; os preços de combustíveis para veículos, 26,47%; e os de alimentos, 13,93%.

Para a maior parte dos brasileiros os danos foram muito maiores, obviamente, do que para os moradores de países desenvolvidos e de vários emergentes, por causa das condições de emprego e das dimensões da pobreza. Não basta comparar taxas de inflação. Para uma visão razoavelmente realista é preciso levar em conta a distribuição dos ganhos, muito mais desigual no Brasil do que em muitas outras economias avançadas e de renda média. Mesmo com dados nacionais é fácil perceber como a alta de preços afeta de forma diferenciada os vários estratos econômicos. Isso é mostrado regularmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em suas tabelas de inflação por faixa de renda.

Confrontados com preços em alta acelerada, bancos centrais de vários países, incluído o Brasil, tentam conter o surto elevando os juros e dificultando a expansão do crédito. Essa política tende a reduzir o ritmo de negócios, com prejuízos para a criação de empregos e para as condições de vida de milhões de famílias. Entre as medidas iniciais de ajuste e seus primeiros efeitos benéficos, multidões enfrentam o duplo desafio de suportar uma inflação em queda apenas gradual e sobreviver numa economia menos dinâmica. O risco de recessão torna mais sombrio o período de ajuste dos preços.

Para o governo brasileiro, a inflação mundial tem servido como justificativa para os desajustes internos, embora os desarranjos nacionais sejam explicáveis principalmente por desmandos cometidos em Brasília, como a gastança eleitoreira, a política econômica sem rumo, a insegurança dos investidores e a consequente sobrevalorização do dólar. Qualquer problema originário de fora apenas complicará um quadro doméstico já pouco animador.

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