O Brasil e a piora global

Nem a piora da economia mundial disfarça o pouco dinamismo do Brasil. E as perspectivas são problemáticas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2019 | 03h00

Se desgraça alheia fosse consolo, os brasileiros poderiam ficar um pouco mais animados, mas nem a piora da economia mundial disfarça o pouco dinamismo do Brasil. A economia nacional deve crescer 0,9% neste ano e 2% no próximo, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mesmo com a sensível perda de vigor, a produção global deve aumentar 3% em 2019 e 3,4% em 2020. É uma desaceleração sincronizada, assim como há dois anos era sincronizada a prosperidade. Há desafios e riscos comuns, mas nem todos os males são partilhados. Em 2024 o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ainda avançará 2,3%, se a agenda for razoavelmente cumprida. Os países emergentes e boa parte do mundo rico deverão estar mais saudáveis.

O baixo potencial de crescimento aparece, mais uma vez, embutido numa projeção de longo prazo. Um novo mandato presidencial começará em janeiro de 2024. O Brasil, segundo a avaliação do Fundo, estará pouco mais eficiente do que hoje, mesmo com algum avanço na pauta de ajustes e reformas. A inflação continuará contida: o número estimado é 3,9%. Mas isso pouco terá servido para a dinamização da economia.

Os economistas do FMI basicamente coincidem com os do mercado e de outras instituições multilaterais na avaliação da capacidade de crescimento do Brasil. As estimativas dificilmente superam 2,5%. Esse limite aparece nas estimativas coletadas pelo Banco Central (BC) para seu boletim Focus. A lista dos entraves inclui o baixo nível de investimento produtivo, as deficiências da infraestrutura, a escassa inovação industrial, o elevado protecionismo, a pouca integração nas cadeias globais de produção, o excesso de burocracia estatal, a insegurança jurídica e a tributação disfuncional. Menos lembrada, mas de enorme importância, é a baixa oferta de capital humano adequado às necessidades de uma economia do século 21.

Esses entraves prejudicam toda a economia, mas são mais visíveis na indústria, menos dinâmica e, de modo geral, menos competitiva que o agronegócio. O produto industrial deve encolher 0,65% neste ano e crescer 2,29% em 2020, segundo a mediana das projeções do Focus. Para os dois anos seguintes estima-se avanço de 2,50%, em linha com a expansão esperada para o PIB. Mas o crescimento geral dependerá principalmente da agropecuária.

Seria preciso levar em conta, poderiam argumentar os otimistas, as reformas. A economia deverá ser beneficiada pela reforma da Previdência. Haverá maior segurança fiscal e, talvez, maior confiança entre os investidores. Mas é cedo para apostar em grandes efeitos positivos de uma reforma tributária, assunto ainda mal definido.

A equipe econômica tem-se empenhado, poderiam acrescentar os mais entusiasmados, em liberalizar e simplificar. Mas também esse esforço, embora possa produzir alguns efeitos positivos, está longe de criar condições para um arranque. As concessões na infraestrutura são promissoras. A pauta de privatizações seria mais convincente, como esforço de dinamização, se estivesse vinculada a uma estratégia de desenvolvimento. Mas o discurso privatista do governo tem sido mais ideológico do que técnico, sem denotar um efetivo planejamento. No governo, como na mais capitalista das empresas, planejar é indispensável, Se nenhuma outra razão existisse, bastaria levar em conta a limitação de recursos.

Não só as perspectivas de médio e de longo prazos são problemáticas para o Brasil. Quase três anos depois de encerrada a recessão, a atividade voltou a perder vigor e pouco deve crescer neste ano. Com a piora da economia mundial, o cenário imediato se complica. A saída proposta pelo FMI inclui a coordenação de políticas, solução bem-sucedida logo depois do desastre de 2008-2009. A sugestão inclui uma revalorização do multilateralismo, necessário para a recuperação, por exemplo, do comércio internacional. Mas é difícil pregar o multilateralismo, quando o presidente dos Estados Unidos abomina essa noção e é seguido por vários governantes, incluído o do Brasil. Não só econômico, o desafio de hoje é também político-diplomático.

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