O Brasil e o mundo atentos à China

A desaceleração chinesa causa apreensão; a China é destino de mais de 30% das exportações brasileiras

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2022 | 03h00

Mudanças no cenário mundial começam a se somar a fatores internos para lançar mais sombras sobre o desempenho da economia brasileira em 2022. A aceleração da inflação nas principais economias mundiais deverá exigir altas dos juros básicos, o que tenderá a reduzir o fluxo de recursos financeiros para as economias emergentes, como a brasileira. As últimas estatísticas da economia chinesa e as projeções para 2022 são igualmente preocupantes, pois a China é, de longe, o principal importador de produtos brasileiros.

A segunda maior economia do mundo, atrás apenas da americana, mas se aproximando rapidamente desta, cresceu 8,1% no ano passado, um desempenho à primeira vista excepcional num mundo ainda conturbado pela pandemia. Mas esse crescimento se dá sobre uma base baixa (em 2020, o Produto Interno Bruto – PIB – chinês cresceu 2,2%, variação muito pequena para os padrões chineses). E, ao longo do ano passado, os resultados em relação a 2020 foram diminuindo. No segundo trimestre, o aumento tinha sido de 18,3% sobre igual período de 2020; no último, foi de 4,9%. Neste ano, o crescimento deve ficar em cerca de 5%, bem menos do que o padrão observado há décadas.

No Brasil, as projeções mais frequentes são de que o Produto Interno Bruto nacional crescerá menos de 0,5% em 2022. Já há previsões do encolhimento do PIB neste ano. A inflação, que passou dos dois dígitos (10,06%) em 2021, será menor em 2022, mas ainda assim ficará acima do teto de tolerância da política de metas inflacionárias.

Impulsionada pelas exportações de produtos do agronegócio, a balança comercial tem desempenhado um papel essencial no equilíbrio das contas externas do País. E a China é, há anos, a principal responsável pelos expressivos superávits da balança comercial. O mercado chinês, como mostrou o Estado (24/1), absorveu 31,3%, praticamente um terço, de tudo o que o Brasil exportou no ano passado. Eventual queda da demanda chinesa por bens importados pode afetar as exportações brasileiras e, consequentemente, o desempenho de toda a economia do País.

Medidas rigorosas de isolamento social em razão do surgimento da nova variante da covid-19, que só um governo ditatorial como o chinês consegue impor, devem conter a atividade econômica durante algum período deste ano. A crise do setor imobiliário, com o colapso de um dos maiores empreendimentos modernos, está igualmente afetando a atividade econômica. Além disso, a estratégia do governo prevê a mudança gradual do modelo de crescimento, até agora voltado para o mercado externo, focando-o no mercado interno, para melhorar as condições de vida dos chineses.

Despreparado para enfrentar os problemas internos – alguns dos quais por ele próprio exacerbados, como a crise fiscal e a alta do dólar –, o governo de Jair Bolsonaro vê surgirem novos, sobre os quais não tem nenhuma influência. Ironicamente, um deles pode vir da China, sempre criticada pelos bolsonaristas fanáticos. À população, resta torcer para que mais este impacto sobre um país sofrido seja brando.

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