O Brasil ficou menos atraente para o capital

O investimento direto ainda cobre as necessidades das contas externas, mas o fluxo diminuiu no período de Jair Bolsonaro

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2022 | 03h00

Importantes para o crescimento econômico e para o avanço tecnológico, investimentos diretos diminuíram no começo da pandemia e voltaram a crescer em todo o mundo, no ano passado, segundo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). No Brasil, o fluxo mais que dobrou entre 2020 e 2021, passando de US$ 28 bilhões para US$ 58 bilhões, de acordo com esse levantamento, mas sem retomar o padrão de 2019, quando o valor atingiu US$ 65 bilhões. O fluxo mundial passou de US$ 929 bilhões para US$ 1,65 trilhão, superando o total anterior à crise sanitária. O investimento direto, destinado à compra de ativos empresariais ou à ampliação da capacidade produtiva, é menos especulativo e menos volátil que aquele voltado para o mercado de títulos e, portanto, especialmente benéfico para a economia.

Os números oficiais brasileiros, publicados pelo Banco Central (BC), são diferentes daqueles citados pela Unctad, mas também mostram uma recuperação incompleta, em aparente harmonia com um quadro de economia vacilante, inflação crescente e muito ruído político. Chegaram a US$ 51,48 bilhões, nos 12 meses até novembro de 2021, os investimentos diretos absorvidos pelo Brasil, em termos líquidos, segundo o último informe do BC. No ano-calendário de 2020 o fluxo havia atingido US$ 39,51 bilhões. Entre janeiro e dezembro de 2019, US$ 69,17 bilhões. No resto desse ano, os valores acumulados em 12 meses foram sempre superiores a US$ 70 bilhões.

O último ano de firme expansão dos investimentos diretos foi 2018, quando entraram US$ 78,16 bilhões, 4,08% do Produto Interno Bruto (PIB). A partir de 2019, os valores acumulados foram geralmente inferiores a 4% do PIB. Com oscilações, as somas em dólares declinaram nos últimos três anos. Mas, apesar da pandemia, os totais acumulados em 12 meses foram sempre maiores, entre janeiro e outubro de 2020, do que aqueles contabilizados até outubro de 2021.

O Brasil obviamente se tornou menos atrativo para o investidor estrangeiro durante o mandato do presidente Jair Bolsonaro. A recuperação parcial do fluxo, depois da primeira onda de pandemia, de nenhum modo contraria essa percepção, mesmo tendo o País passado da oitava para a sétima posição entre os destinos do investimento direto, segundo a Unctad.

Pelo tamanho de sua economia, pela presença já muito grande do capital estrangeiro e por suas possibilidades, o Brasil continua sendo um polo de interesse para o investidor de fora. Mas sua atração é bem menor do que foi em outros tempos, como indicou a pesquisa anual CEO Survey da empresa de consultoria e auditoria PwC.

Nessa pesquisa, realizada com cerca de 4.500 executivos de todo o mundo, o Brasil ficou na pior posição em muitos anos. Segundo o relatório, o dirigente de um fundo com aplicações superiores a US$ 100 bilhões na América Latina teria declarado a intenção de evitar qualquer aplicação no Brasil enquanto estiver no poder o presidente Jair Bolsonaro. Não seria esse um caso isolado. Em 2013 o Brasil esteve em terceiro lugar na agenda das grandes empresas internacionais. Sua posição piorou na crise do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Houve uma recuperação parcial depois da eleição de 2018, mas essa melhora já se perdeu.

Apesar do recuo do capital estrangeiro, o Brasil tem recebido investimento direto muito mais que suficiente para cobrir seu déficit em transações correntes, estimado em US$ 30,84 bilhões nos 12 meses até novembro. O superávit no comércio de mercadorias, garantido pelo agronegócio e pelo setor mineral, tem permitido manter em nível seguro o déficit das transações correntes. O País tinha em novembro US$ 367,77 bilhões de reservas, um volume confortável. Como explicar, então, a instabilidade cambial e o dólar supervalorizado? A resposta, bem conhecida, está na insegurança dos aplicadores financeiros, diante dos desmandos e das omissões do presidente Bolsonaro. Dólar caro e retração do investidor direto formam parte do custo do desgoverno instalado em Brasília.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.