O Brasil na Antártida

Em oito anos, sob as condições adversas de uma das regiões mais inóspitas do planeta, reergueu-se das chamas a mais moderna e segura base científica já construída no chamado continente gelado

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2020 | 03h00

A nova Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) é um triunfo de engenharia e logística. Em oito anos, sob as condições adversas de uma das regiões mais inóspitas do planeta, reergueu-se das chamas a mais moderna e segura base científica já construída no chamado continente gelado. O feito deve orgulhar os brasileiros. Deve ainda chamar à responsabilidade as autoridades incumbidas de fomentar o progresso da ciência no País.

Em seu discurso na cerimônia de inauguração da nova EACF, no dia 15 passado, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou que a ocasião era de “júbilo, reconhecimento e homenagem”. Mourão referia-se à excelência das instalações brasileiras na Antártida, onde o País realiza pesquisas desde 1982, e à memória do tenente Carlos Alberto Vieira Figueiredo e do sargento Roberto Lopes dos Santos, ambos da Marinha. Os militares foram as duas vítimas fatais do trágico incêndio que destruiu 70% da base no dia 25 de fevereiro de 2012.

Mourão afirmou também que o ato representa “o avanço do Brasil neste continente e expressa o compromisso do governo com o desenvolvimento das atividades científicas, climáticas e ambientais”. Mas será preciso muito mais do que um discurso em ocasião festiva para que a Nação, de fato, veja no governo do presidente Jair Bolsonaro um genuíno compromisso com o desenvolvimento científico do País. Até o momento, diante dos atos e palavras do mandatário, a percepção é exatamente a oposta. Em todas as oportunidades que teve de se manifestar sobre questões “científicas, climáticas e ambientais”, Bolsonaro não se furtou a desqualificar pesquisadores respeitados nacional e internacionalmente, minimizar os efeitos das mudanças climáticas e menosprezar preocupações legítimas com a preservação ambiental. Ou seja, não faltaram oportunidades para que o presidente da República deixasse claro que produção de ciência não está entre as suas prioridades.

A desinformação propagada pelo ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, tampouco ajuda a reverter a má impressão que se tem da ligação tênue do governo federal com o progresso científico. Membro da comitiva que viajou à Antártida para a reinauguração da EACF, Pontes escreveu no Twitter que a base é “um grande projeto do governo Jair Bolsonaro, através (sic) da parceria entre a Marinha do Brasil, responsável pela estrutura e operações”, e sua pasta. Isto não é verdade. A reconstrução da EACF foi autorizada durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff e executada primordialmente no governo do ex-presidente Michel Temer. Não fossem intempéries que atrasaram a obra, a nova EACF teria sido inaugurada há mais de um ano. Antes, portanto, da posse do atual presidente.

Mas, se não teve participação direta no planejamento e construção da nova EACF, o governo Bolsonaro pode contribuir muito para a realização de todo o potencial de um complexo científico composto por 17 laboratórios de pesquisa nas áreas de microbiologia, medicina, química atmosférica, paleontologia e mudanças climáticas, entre outras. Basta deixar de lado a exploração política da promissora obra e cuidar para que não faltem recursos necessários para a produção científica. É hora de um olhar de estadista, além do alcance imediato dos interesses de um governo.

A reconstrução da EACF foi custeada pelo Ministério da Defesa (US$ 100 milhões). Já o financiamento das linhas de pesquisa na Antártida é feito por órgãos ligados ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Sem estes recursos, “a EACF não passará de uma casa vazia”, como disse certa vez o cientista Jefferson Simões, vice-presidente do Comitê Científico de Pesquisa Antártica (Scar).

Obstáculos de toda ordem foram vencidos para que o País fosse dotado da mais moderna e segura base de pesquisas na Antártida. Resta saber se os cientistas que lá estão sucumbirão à burocracia e ao descaso com a ciência que grassa em certos gabinetes de Brasília.

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