O Brasil real continua travado

Na maior parte deste ano houve recuos mensais na produção industrial e nas vendas do comércio varejista

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 03h00

O Brasil próspero e otimista do ministro da Economia, Paulo Guedes, continua muito diferente do país de milhões de outros brasileiros, onde o emprego é escasso, a indústria derrapa e o varejista se defronta com um consumidor empobrecido, inseguro e acuado por uma inflação devastadora.

O volume vendido no varejo do dia a dia diminuiu 1,3% em setembro, depois de haver encolhido 4,3% em agosto. Também em setembro a indústria produziu 0,4% menos que no mês anterior, acumulando quatro reduções consecutivas. Promoções de fim de ano, incluída a Black Friday, podem criar alguma animação nas próximas quatro ou cinco semanas. Mas o quadro geral continuará sombrio até o fim de 2022, segundo as projeções correntes, com economia estagnada, forte alta de preços e dinheiro cada vez mais caro.

O balanço do terceiro trimestre será ruim, a julgar pelos números já conhecidos da indústria e do varejo. Mostrará, no entanto, apenas o prosseguimento de uma recuperação insegura e precária. Depois do primeiro choque da pandemia, a retomada pareceu vigorosa, durante alguns meses, mas o impulso diminuiu sensivelmente a partir do começo de 2021. Em sete dos nove meses de janeiro a setembro houve recuo da produção industrial. No comércio varejista houve resultados negativos em cinco dos nove meses, na comparação com o período imediatamente anterior.

Mais de 19 milhões caíram na extrema pobreza, no começo do ano, com a suspensão do auxílio emergencial. Esse desastre social explica boa parte da redução das vendas nos primeiros meses de 2021. Nos meses seguintes, a disparada dos preços e o encarecimento do crédito, com a alta de juros, tornaram mais complicada a situação, já muito precária, da maior parte das famílias.

Durante todo o tempo, a persistência do desemprego elevado e das más condições de trabalho assombraram os brasileiros. O ministro da Economia costuma alardear melhoras do emprego formal, mas os dados, mesmo quando verdadeiros, são pouco significativos quando confrontados com os cenários mais amplos mostrados pelo IBGE. Além disso, é difícil confiar na fonte do ministro, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Um ajuste recém-divulgado diminuiu quase pela metade os números de 2020, anunciados sempre triunfalmente pela equipe econômica.

No varejo do dia a dia, formado pela maior parte das atividades comerciais, as vendas de setembro, além de 1,3% menores que as de agosto, foram 5,5% inferiores às de um ano antes. O varejo ampliado, formado com inclusão das lojas de veículos, motos, partes e peças e também de material de construção, vendeu 1,1% menos que no mês anterior e 4,2% menos que em setembro de 2020.

O quadro parece muito melhor quando se comparam períodos longos. No ano, o comércio do dia a dia vendeu 3,8% mais que entre janeiro e setembro de 2020. No caso do varejo ampliado, o confronto aponta um aumento de 8%. Mas a base de comparação é muito baixa e por isso a recuperação parece mais vigorosa.

A percepção se torna mais precisa quando se tomam como referência períodos anteriores à pandemia. Em setembro, as vendas do varejo restrito foram 0,4% menores que as de fevereiro de 2020, último mês antes do grande choque. As do varejo ampliado foram 1,7% inferiores às daquele mês. No caso da produção industrial, a comparação mostra um volume 3,2% abaixo do patamar de fevereiro do ano passado.

Mas o Brasil já ia mal no primeiro bimestre de 2020, antes dos estragos causados pela covid-19. A economia mal havia começado a se recobrar da recessão de 2015-2016. Em 2019, início do período Bolsonaro, o crescimento foi menor que em 2018. O Brasil já estava longe dos picos de atividade alcançados antes daquela crise e assim continua. No trimestre móvel terminado em setembro a indústria produziu 19,4% menos que em maio de 2011 e o varejo continuou abaixo do patamar de outubro de 2014.

Pelo menos os parlamentares do Centrão podem manter algum otimismo em relação aos próximos 10 ou 12 meses. O presidente continuará precisando de seu custoso apoio. --

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