O capital em fuga

A saída de capital pode ser sinal de sérios problemas, presentes ou prováveis. No Brasil ocorrem os dois casos, mas o governo olha para outro lado

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 03h00

A fuga de capitais é indisfarçável. Algo está assustando os investidores. O Brasil perdeu US$ 30,6 bilhões de janeiro a julho, tirados de aplicações em fundos de investimento, ações e títulos de dívida. O movimento se inverteu. Um ano antes tinha havido entrada líquida de US$ 14,1 bilhões - diferença entre ingressos e saídas. Em 12 meses a perda líquida chegou a US$ 52,3 bilhões. O resultado positivo de julho, de US$ 885 milhões, pouco pesou nessas contas. Os dados estão no relatório do setor externo recém-divulgado pelo Banco Central (BC). As fortes oscilações do dólar - cerca de 7,5% só nos últimos 30 dias - continuam refletindo a insegurança de quem participa do dia a dia do mercado de papéis.

“Que bom, que vá embora”, disse o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, comentando a fuga do capital especulativo. “Nos interessa o capital para investir em projetos de médio e de longo prazos, que gerem emprego, renda”, acrescentou. Mas o mundo é bem menos simples. A saída do capital especulativo pode ser um sinal de sérios problemas, presentes ou prováveis. No Brasil ocorrem os dois casos, mas o presidente e a maior parte de seus auxiliares continuam olhando para outro lado.

Os problemas apenas entrevistos já são bastante graves para estimular a fuga de dólares e enfraquecer o mercado de capitais. Há muita insegurança quanto ao futuro das contas oficiais e, de modo especial, da dívida pública. Ao reconhecer o estado de calamidade, o Congresso autorizou ações excepcionais até o fim do ano. Mas a retomada do ajuste a partir de janeiro continua incerta.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem reafirmado o compromisso com a arrumação fiscal, mas vários ministros defendem mais gastos. São os chamados “desenvolvimentistas” - uma denominação imprópria, porque o desenvolvimento em geral pressupõe planejamento, algo desconhecido neste governo. Além disso, o presidente cuida quase exclusivamente de sua reeleição e cobra engajamento da equipe econômica. Enfim, há os custos do apoio parlamentar hoje mobilizado pelo presidente.

Para quem acompanha o mercado, tornou-se rotineira a associação entre dois grupos de variáveis: de um lado, as oscilações do câmbio, dos preços das ações e dos juros futuros, e, de outro, as incertezas quanto às decisões do presidente e suas consequências para as contas públicas. O olhar pode ser atraído principalmente pelo dólar e pela bolsa de valores, mas a variação dos juros também é uma sinalização importante. O custo do dinheiro tenderá a subir se houver fortes sinais de piora nas finanças do governo.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, reafirmou na segunda-feira a importância do compromisso com a pauta de ajustes e de reformas. Sem isso, será muito difícil impedir a alta da taxa básica de juros, hoje no menor nível de sua história, 2% ao ano.

Mas além da saída de capitais tem havido menor entrada. Dirigentes de grandes fundos têm anunciado a disposição de evitar o mercado brasileiro enquanto o governo for tolerante à devastação ambiental. Além de espantar investidores, a política do presidente Jair Bolsonaro dá argumentos ao protecionismo contra o agronegócio brasileiro. Até aqui, o verdadeiro agronegócio, eficiente e respeitador do ambiente, continua sustentando o superávit comercial e a segurança das contas externas.

Pode parecer estranho, mas a crise também tem dado contribuição positiva, pela redução das importações, dos gastos com viagens e da remessa de lucros e dividendos. Em julho, as transações correntes foram superavitárias em US$ 1,6 bilhão. Foram quatro meses seguidos de saldo positivo, uma raridade. Em 12 meses o déficit ficou em US$ 31,7 bilhões, bem abaixo do registrado no período até junho (US$ 43,2 bilhões). Os US$ 62,5 bilhões de investimento direto, aquele menos volátil, financiaram com folga o buraco nas contas correntes. Esse tem sido o padrão, mas também o investimento direto tem caído. Nos 12 meses até julho de 2019 haviam entrado US$ 79,6 bilhões. Também isso merece atenção.

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