O castrismo sem Castro

Após seis décadas, a era Castro chega ao fim, mas nada muda em Cuba

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 03h00

“Se quisermos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mude”, reza a máxima do cinismo político no romance O Leopardo. Mas as tiranias costumam se isentar da homenagem que o vício presta à virtude: a hipocrisia. Unidad y Continuidad foi o slogan do Congresso Comunista de Cuba em que Raúl Castro, três anos após entregar a presidência ao pupilo Miguel Díaz-Canel, lhe entregou o comando do Partido. Aos 89 anos, Raúl disse que foi a “lei da vida”. Na prática foi a sua lei. Não poderia ser outra, nem política, nem jurídica, nem econômica, nem moral. Em Cuba, o Partido é maior que o Estado, e os Castros são maiores que o Partido.

O gangsterismo político do jovem latifundiário Fidel fora modelado no protofascismo de caudilhos como Primo de Rivera e Perón. Ao tomar o poder, começou, como Lenin, a governar por decretos e, como Hitler, aboliu os partidos. Após o pacto com a URSS passou a repetir ad nauseam os clichês marxistas que magnetizaram as fantasias da esquerda pós-Stalin. Foi a ditadura mais longa e sangrenta das Américas. Estimativas conservadoras falam em 4 mil execuções – outras sugerem 17 mil. Ao menos 15% dos cubanos fugiram do país. O totalitarismo castrista perseguiu homossexuais e teve até sua religião de Estado: o ateísmo. Em 2008, Cuba só perdeu para a China em jornalistas encarcerados.

Em 1959 o país era um dos mais prósperos das Américas: 5.º em renda per capita, 3.º em expectativa de vida, 2.º em automóveis e telefones per capita. Hoje é dos mais pobres. Os bons sistemas de saúde e educação, antes que construídos, foram preservados: a taxa de alfabetização era maior que a da Espanha e o país era o 11.º do mundo em médicos per capita. Hoje o ensino é acintosamente doutrinário e, como a saúde, é instrumentalizado para perseguir dissidentes.

Cerca de 60% dos trabalhadores são empregados do Estado, diga-se, do Partido, e 60% da comida é importada. A aposta nos produtos farmacêuticos nunca funcionou, em parte porque não foram aprovados nos mercados regulamentados, em parte porque o país não produz insumos. Como quando Cuba era um satélite dos EUA, a economia vive do açúcar e do turismo. Mas antes ela supria 35% do mercado global de açúcar, hoje só 10%. A pandemia dizimou o turismo.

Recentemente o Partido dissolveu o sistema de moeda dupla. A economia foi em parte dolarizada e a inflação deve bater em 500%. Os servidores do Estado receberam aumento, mas os 40% de trabalhadores privados foram depauperados. Muitos gastam horas na fila do pão. O número dos que tentam fugir subiu. Em 2020 o PIB encolheu 11%. Cuba optou por desenvolver sua vacina, mas a imunização está atrás do resto do mundo.

O cartel Castro segue no comando. #SomosContinuidad é a hashtag predileta de Díaz-Canel. Outro títere, o brigadeiro Rodríguez López-Callejas, ex-genro de Raúl, comanda a Gaesa, o conglomerado militar que controla 75% da economia (e possivelmente o tráfico de cocaína venezuelana). O coronel Alejandro Castro, filho de Raúl, é um maioral da agência de espionagem.

Díaz-Canel flerta com a abertura gradual dos mercados. Mirando a China, talvez suponha que, se tudo mudar na economia, tudo permanecerá na política. Ironicamente, se os embargos americanos (o maior pretexto do Partido para manter o aparato de repressão) fossem retirados, as mudanças viriam tão rápido que sairiam do controle do Partido. 

“A escolha à mão é a continuidade dos ideais da revolução ou a derrota”, disse Raúl. Os nascidos sob os escombros de uma crise interminável só esperam essa derrota para começar a vencer na vida. No Brasil e no mundo personalidades midiáticas seguem glamorizando as atrocidades dos Castros. O tribunal da História dará sua sentença aos Castros, como dará às decrépitas criaturas do Politburo. Por elas, esse regime mortífero imperaria pelos séculos estendendo-se ao mundo. Moderadas leis econômicas, jurídicas e políticas preservam o mundo. Já à ilha, escorchada pelas sanções americanas, pela carestia e pelo vírus, resta a esperança de que a “lei da vida” a ajude a restaurar o império da lei.

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