O centrismo fake de Lula

Alckmin, outrora adepto da cartilha liberal, agora aplaude até a Internacional Socialista. Mas quantos passos Lula deu rumo às ideias centristas, como a responsabilidade fiscal? Nenhum

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 03h00

A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva está estruturada em dois eixos retóricos: a ideia de que sob os governos petistas os brasileiros eram felizes e não sabiam e a de que Lula se move rumo ao centro para construir uma frente ampla apta a “salvar a democracia”.

“O grave momento que o País atravessa, um dos mais graves da nossa história, nos obriga a superar eventuais divergências para construirmos juntos uma via alternativa à incompetência e ao autoritarismo que nos governam”, afirmou Lula no lançamento de sua pré-candidatura. “Queremos unir os democratas de todas as origens e matizes para enfrentar a ameaça totalitária, o ódio, a violência, a discriminação, a exclusão. Queremos construir um movimento cada vez mais amplo.”

Por décadas o lulopetismo foi o maior responsável por excitar a atmosfera do “nós” contra “eles” que asfixiou o pluralismo democrático e criou as condições para que Jair Bolsonaro alavancasse seu projeto de poder. Estará disposto a deixar as diferenças de lado e formar uma frente ampla e plural?

A resposta, ainda que involuntária, veio daquele mesmo que deveria ser um selo de legitimidade à moderação de Lula, Geraldo Alckmin. “Lula é a esperança que resta ao Brasil”, disse, assumindo de vez o hegemonismo messiânico lulopetista. “Não é a primeira, a segunda nem a terceira, ela é a única via da esperança para o Brasil” (grifo nosso).

A fala reverbera a narrativa sufocante de que as eleições são só um plebiscito sobre a barbárie do governo Bolsonaro. O próprio Lula, bem a seu modo, já demonizou literalmente toda a alternativa que não seja ele: “A humanidade acompanha há séculos a polarização entre Deus e o diabo, e nunca teve terceira via”.

A história do PT sempre foi a tentativa de desmoralizar a direita como “inimiga do povo” e de submeter a esquerda ao seu projeto de poder. Não há nada que permita duvidar de que essa atitude se mantém.

“Não esperem de mim ressentimentos ou desejos de vingança. Não nasci para ter ódio, nem mesmo daqueles que me odeiam”, disse Lula. Ora, esse mesmo Lula que pede o fim das “ameaças”, de “suspeições absurdas”, de “tensões artificiais” é aquele que continua a afrontar os Poderes, afirmando que o impeachment de Dilma Rousseff foi um “golpe” do Legislativo e que o Judiciário moveu uma perseguição política, ambos manobrados por uma conspiração das elites; o mesmo que, há poucos dias, atacou a classe média como predatória e convocou seus correligionários a assediar deputados e suas famílias em suas casas.

Assim como o PT que pretende resolver os problemas econômicos é o mesmo responsável pela recessão, a inflação, a manipulação de preços ou a irresponsabilidade fiscal que precipitaram o País na barafunda em que se encontra hoje, o PT que se apresenta como o único capaz de “salvar a democracia” é o mesmo que, na oposição, se opôs a tudo que viesse de qualquer governo para criar desgaste; é o mesmo que promoveu criminosas campanhas de difamação de adversários e dissidentes; é o mesmo que, no poder, arquitetou os escândalos fisiológicos do mensalão e do petrolão que tanto perverteram o regime democrático; é o mesmo que inchou e aparelhou desenfreadamente o Estado; é o mesmo que apoia as mais sangrentas ditaduras. Sem emitir uma só palavra que permita supor uma revisão dessas atitudes muito menos um pedido de desculpas, Lula e seus acólitos continuam a afirmar seu monopólio da ética.

Lula foi à feira e encontrou um “chuchu” barato para enganar os incautos. Alckmin, outrora adepto da cartilha liberal, agora aplaude até a Internacional Socialista. Mas quantos passos Lula deu rumo às ideias centristas supostamente representadas por Alckmin, como a responsabilidade fiscal ou a abertura de mercado? Nenhum. Prova disso é que, além dos partidos de sempre, como PCdoB, PSOL e PSB, nenhuma outra legenda ou líder de centro aderiu à sua “frente ampla”.

Todos os esforços marqueteiros para mesclar o verde e amarelo ao vermelho ou ocultar o histórico de atentados do PT à economia e à democracia não disfarçarão o fato de que a tal “frente ampla” nada mais é que o velho bloco do “eu sozinho” de Lula.

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