O centro se sustenta

O eleitor alemão manifestou seu desejo por estabilidade, mas também por renovação

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 03h00

As eleições na Alemanha foram inconclusivas como nunca e equilibradas como sempre. Na corrida eleitoral, a liderança oscilou entre o bloco de centro-direita da democracia cristã (CDU-CSU), a centro-esquerda social-democrata (SPD) e os Verdes. Ao fim, revertendo anos de declínio, o SPD terminou à frente, e terá a chance de formar um governo, em princípio aliando-se aos Verdes e liberais. Mas as incongruências entre esses partidos e a margem estreita sobre a democracia cristã da chanceler Angela Merkel (25,7% contra 24,1%) não permitem descartar que o CDU seja chamado a negociar ou mesmo que consiga virar o jogo e compor uma maioria. A definição pode tomar meses.

Essa perspectiva complexa, por mais volúvel que pareça na superfície, revela que no fundo o eleitor alemão deseja, a um tempo, continuidade – mas sem estagnação – e renovação – mas sem ruptura.

Em favor da continuidade, os dois partidos que formam a atual “grande coalizão” e dominaram a Alemanha no pós-guerra – o mais antigo (SPD) e o maior e atual líder (CDU) – seguiram com mais votos. O líder social-democrata, Olaf Scholz, é ministro das Finanças de Merkel e vice-chanceler, o mais popular dos candidatos, e conduziu uma campanha inteligente, em parte emulando o estilo prudente de Merkel, em parte enfatizando políticas social-democratas freadas sob a liderança conservadora, como o aumento do salário mínimo.

Por outro lado, a soma dos dois “partidos do povo”, que no passado chegaram a concentrar 90% dos votos, caiu para menos de 50%. Pela primeira vez desde os anos 50, o governo deverá ser composto por uma coalizão de três partidos.

Em favor da renovação, as urnas revelam um claro desgaste do bloco CDU-CSU. Em relação às eleições de 2017, que já haviam sido um nadir para a democracia cristã, a queda foi de 8,8%. Armin Laschet, o líder do CDU, fez uma campanha desprovida de paixão e ideias, apostando que a promessa de continuidade da era Merkel bastaria para elegê-lo. O fracasso – o maior da história do bloco – põe em risco sua orientação centrista, com o previsível contra-ataque da ala conservadora, preterida na eleição pela liderança do CDU.

O fiel da balança serão os liberais (FDP) – que, com 11,5% dos votos, tiveram um ganho de 0,7% em relação ao último pleito – e, sobretudo, os Verdes. Estes chegaram a liderar as pesquisas, e o resultado final (14,8% dos votos) tem um gosto de frustração. Mas foi o melhor desempenho de sua história, com um ganho de 5,8 pontos porcentuais sobre as últimas eleições.

A primeira opção dos social-democratas será aliar-se a ambos. As divergências entre os dois não são pequenas. Mas já antes das eleições eles estavam em negociação, e se firmarem consensos terão em suas mãos grandes alavancas no próximo governo, que terá de equilibrar os anseios dos liberais por austeridade fiscal e os dos Verdes por investimentos na descarbonização.

A desidratação dos grandes partidos e a ascensão dos menores revelam o desejo por renovação. Mas sem rupturas. Tanto o extremo à esquerda quanto o extremo à direita perderam votos. O semicomunista A Esquerda seguiu sua trajetória de declínio, ficando com 4,9% (uma perda de 4,3 pontos porcentuais). A reacionária Alternativa para a Alemanha, que vinha em ascensão, sobretudo após a crise dos refugiados, perdeu 2,3 pontos porcentuais, ficando com 10,3%.

Em um período de erosão da democracia – ilustrado pela emergência dos nacionalismos nos EUA (Donald Trump) e Reino Unido (Brexit), por aventuras populistas na Itália ou pelas incertezas na França após o voto de confiança na agenda reformista de Emmanuel Macron –, a cultura política alemã dá sinais de vigor. A liderança seguirá nas mãos competentes de Angela Merkel até que se forme o novo governo, e, por incerto que seja esse processo, é um sinal de que os pulmões da democracia – a negociação e o consenso – prevaleceram sobre seus maiores patógenos – o autoritarismo e a segregação. A mensagem da principal economia e liderança europeia para o mundo (agudamente tempestiva para o Brasil) é que o centro não só pode se sustentar, mas se renovar.

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