O clima como questão política

O clima é um dos poucos temas que mobilizam a juventude. A nenhum governante é permitido ignorar a questão como principal tópico político no planeta

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 03h00

Milhões de jovens saíram às ruas em 130 países, na semana passada, para exigir que os governos adotem medidas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e enfrentar as causas onde isso ainda for possível. Essa manifestação global mostrou que a questão climática é uma das poucas capazes de mobilizar hoje uma juventude crescentemente alheia à política e fechada em suas redes sociais. Assim, a nenhum governante é permitido ignorar esse fenômeno, que consolida o tema ambiental como o principal tópico político no planeta.

As mudanças climáticas afetam todos os quadrantes da vida em sociedade, e por isso devem ser encaradas como um problema de todos, e não somente deste ou daquele país. Preservando-se a soberania de cada nação, é preciso enfatizar que a devastação de florestas em um país certamente traz consequências para outros. Do mesmo modo, um governo pode ordenar a redução de emissão de gases, mas os resultados serão inócuos se essa iniciativa não for seguida por outros países. Ou seja, o enfrentamento das mudanças climáticas só terá bons resultados se o esforço for coletivo.

Isso significa aceitar como inevitável a negociação política em organismos internacionais, fóruns adequados para que se alcance consenso mínimo acerca dos problemas de caráter global, como é o caso das mudanças climáticas. É um evidente retrocesso quando um país como o Brasil, que sempre foi protagonista nas discussões sobre meio ambiente, esteja ausente de uma cúpula das Nações Unidas sobre o clima porque seu governo não demonstrou interesse, segundo informou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

É perfeitamente possível negociar acordos para a adoção de medidas contra as mudanças climáticas sem colocar em risco a soberania nacional. O que não é mais possível é negar-se a enfrentar a realidade, refugiando-se em um discurso que, a título de defender a pátria, menospreza a ciência e as evidências. É somente por meio do debate adulto nos fóruns internacionais que o Brasil será capaz de expor suas demandas, ao mesmo tempo que poderá questionar que interesses estão por trás das pressões que os europeus têm feito em relação à Amazônia – e todos sabem que os agricultores da Europa ficariam satisfeitos se seus competidores brasileiros fossem confundidos com desmatadores e sofressem as consequências disso no comércio internacional (leia também o editorial Risco de fogo nas contas externas).

Para que esse diálogo seja construtivo, a condição indispensável é admitir que o problema das mudanças climáticas existe. Negá-lo pública e reiteradamente, denunciando essa agenda como parte de uma conspiração “globalista” da esquerda internacional, interdita qualquer entendimento sobre o problema. Pior, ao ignorar que eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais comuns, essa atitude coloca em risco o equilíbrio econômico de setores essenciais, como a agricultura.

Os protestos dos jovens são um sinal de que esse tipo de mistificação não tem mais lugar no debate sobre as mudanças climáticas. Em vez de discutir sobre o formato da Terra, se plano ou esférico, é preciso repensar processos industriais, hábitos de consumo e matrizes energéticas para reduzir os danos causados pelas mudanças climáticas. Nada disso é fácil, pois inúmeros interesses estão em jogo. Felizmente, há dirigentes que parecem empenhados em superar os obstáculos políticos para que se conciliem as necessidades ambientais e as demandas econômicas. Governadores de Estados da região amazônica, por exemplo, sinalizaram a possibilidade de aderir a uma aliança idealizada pela França para proteger as florestas locais, mesmo depois de o governo brasileiro ter rejeitado a iniciativa. Isso não significa render-se à intromissão estrangeira em assuntos brasileiros, e sim aceitar que a preservação ambiental deixou há muito tempo de ser um problema de âmbito exclusivamente nacional, firmando-se de vez como tema político global. Como disse ao Estado uma jovem indígena brasileira que participava de um protesto em Nova York, liderado pela adolescente sueca Greta Thunberg, “não existe diferença entre uma jovem indígena como eu e uma jovem sueca como Greta”, pois “nosso futuro está conectado pelas mesmas ameaças da crise climática”.

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