O combate ao ‘novo cangaço’

As forças de segurança precisarão se antecipar à sofisticação das organizações criminosas

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 03h00

Nos últimos três anos os mega-assaltos (o “novo cangaço”) se intensificaram em frequência e complexidade. Só em São Paulo foram oito casos. O ataque em Araçatuba atingiu um novo patamar, causando espanto pela sofisticação das táticas bélicas, o volume do arsenal e as técnicas de intimidação: veículos blindados; bombas ativadas por celular ou detecção de calor; drones; e escudos humanos amarrados nos capôs dos carros. Tal operação não se faz sem uma ampla rede de apoio informacional, logístico e financeiro. A mesma complexidade que faz essas ações tão lucrativas para os bandidos e aterrorizantes para a população também tem um alto potencial de rastreabilidade, que precisa ser revertido pelas forças de segurança a seu favor para aprimorar suas táticas de prevenção, combate e investigação.

Da parte dos bancos, sistemas preventivos como mecanismos que disparam tinta nas notas em caso de explosão ou arrombamento podem ser mais difundidos. No fim do mês os bancos federais costumam ser abastecidos com grandes volumes de dinheiro para pagar benefícios sociais. Essa logística pode ser revista. Uma comunicação mais integrada entre os bancos e as polícias para identificar datas e locais de risco é imprescindível.

Cidades interioranas de médio porte são as preferidas, em razão dos menores contingentes policiais e canais de fuga. Desde 2019, o governo de São Paulo criou 12 Divisões Especializadas de Investigações Criminais e se comprometeu a ampliar os Batalhões de Ações Especiais de Polícia (Baeps) de 5 para 22. Já foram instaladas 9 unidades. Faltam 8 até o fim de 2022.

Os Baeps precisam estar preparados para cobrir perímetros no interior, mapeando alvos-chave. Araçatuba, por exemplo, é um polo canavieiro e tornou-se um entreposto na rota da cocaína que vem da Bolívia e do Paraguai rumo ao Porto de Santos.

“Um roubo dessa envergadura, com hierarquia e divisão de tarefas, material bélico e explosivos, tem a cara do PCC, mas não sozinho. Os grandes crimes hoje estão com trabalhos terceirizados”, disse a magistrada Ivana David. “Uma (organização) aluga armas, outra blinda os carros e cuida do transporte, outra entra com cangaceiros.” O último polo na cadeia são os responsáveis pela lavagem do dinheiro.

Dos dez suspeitos presos e dois mortos, há indícios de que três integravam o PCC. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, especialista na facção, há sinais de que o PCC teria repassado aos bandidos técnicas militares adquiridas com mercenários das Forças Armadas da Bolívia e do Paraguai. Isso sugere que os Baeps precisarão aprimorar suas táticas de choque.

Ainda mais importantes, porque mais defasados, são os investimentos em inteligência, polícia científica e integração das forças de segurança nacionais, cruciais para combater organizações de envergadura nacional e internacional. O governo federal criou a Coordenação-Geral de Repressão a Drogas, Armas, Crimes Contra o Patrimônio e Facções Criminosas da Polícia Federal. Mas, no geral, suas promessas eleitorais de aprimorar ostensivamente a segurança pública são letra morta.

O Sistema Único de Segurança, criado pela gestão Temer para integrar as ações dos entes federados, foi negligenciado. Uma das demandas do setor bancário é o controle de explosivos. Estima-se que 90% das explosões de caixas e carros-fortes sejam feitas com explosivos extraviados de pedreiras. O Exército chegou a editar três portarias para aprimorar o monitoramento de armas e munições, entre elas os explosivos, mas elas foram revogadas pelo presidente sem outra justificativa senão a de que não se adequavam “às minhas diretrizes”.

Na última década, os assaltos a banco e explosões de caixas eletrônicos caíram mais de 90% em São Paulo. Mas o novo cangaço não será reprimido com velhas práticas de segurança. A sua escalada revela que o crime organizado está se profissionalizando e se sofisticando aceleradamente. Sob o risco de os mega-assaltos se tornarem endêmicos, as forças de segurança estaduais e federais precisam se sofisticar a uma velocidade redobrada.

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