O começo de uma longa jornada

O País voltará à pré-pandemia, mas ainda faltará retomar o desenvolvimento

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 03h00

Com avanço de 1,2% no primeiro trimestre, num cenário ainda marcado pela pandemia e pelo alto desemprego, aumentam as apostas num crescimento econômico superior a 4% em 2021. Será suficiente para o País escapar do buraco onde afundou no ano passado, quando o Produto Interno Bruto (PIB) diminuiu 4,1%. Os mais otimistas põem suas fichas numa expansão de 5%, num quadro de vacinação mais veloz e menor risco de novos surtos de covid-19. Se estiverem certos, o Brasil voltará, com pequena folga, ao patamar de 2019, mas continuará abaixo dos níveis anteriores à recessão de 2015-2016. Mais precisamente, 3,1% abaixo do pico registrado nos primeiros três meses de 2014. No retorno ao normal, a economia continuará limitada por um potencial de crescimento estimado em cerca de 2,5% e com o setor industrial ainda muito fraco.

O potencial de 2,5%, muito inferior aos padrões de outros países emergentes, está indicado, desde antes da pandemia, nas projeções coletadas semanalmente na pesquisa Focus, do Banco Central. A ampla dependência da atividade rural foi mais uma vez confirmada pelos novos dados do PIB. No primeiro trimestre, a economia foi novamente puxada pela agropecuária, com expansão de 5,7% em relação aos três meses finais de 2020. Nesse período, a indústria avançou apenas 0,7% e os serviços, 0,4%.

A força maior do campo aparece em todas as comparações. Com expansão de 2,3%, só a produção da agropecuária aparece com sinal positivo, quando se confrontam os quatro trimestres encerrados em março com o período anterior. No caso da indústria, o recuo foi de 2,7%. Nos serviços a perda foi de 4,5%. Este setor inclui, além do comércio varejista, outros negócios muito dependentes da relação presencial, como restaurantes, bares, hotéis, salões de beleza e transportes de passageiros.

O PIB encolheu 3,8% nesse período de quatro trimestres. Esse número indica o avanço necessário, a partir deste segundo trimestre, para o retorno ao zero a zero nesse tipo de confronto. Quanto à comparação do período janeiro-março deste ano com o do ano passado, o resultado geral é positivo, como se podia prever facilmente.

Mas o aumento do PIB ficou em apenas 1%, com avanço de 5,2% na agropecuária e de 3% na indústria. Os serviços diminuíram 0,8%, prejudicados pelos cuidados ainda impostos pela pandemia no começo deste ano e, certamente, pelo aperto financeiro das famílias.

Apesar dessa recuperação, a produção da indústria geral ainda foi 9,8% menor que a do trimestre inicial de 2014. Não basta levar em conta o avanço do PIB. Para avaliar as condições e perspectivas da economia, é preciso observar os números de cada setor, considerando sua importância estratégica. O governo parece dar pouca ou nenhuma importância a detalhes estratégicos, mas há no País uma evidente desindustrialização.

Não se trata de passagem a uma fase pós-industrial, como nas economias mais avançadas, mas de um retrocesso na indústria de transformação. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, a expansão de 0,7% da indústria foi puxada pelo segmento extrativo (3,2%). Esse desempenho positivo foi seguido pela construção e pelas atividades de eletricidade, gás, água, esgotos e tratamento de rejeitos.

Todos os subsetores industriais cresceram, menos o da indústria de transformação, onde se incluem atividades como fabricação de veículos, tratores, aviões, tecidos, vestuário, calçados, televisores, telefones, computadores, máquinas, equipamentos mecânicos, bebidas, medicamentos, artigos de higiene e beleza e alimentos.

Durante décadas, a indústria foi o grande canal de absorção, adaptação e geração de tecnologia, com papel central na modernização do País. Esse papel vem sendo perigosamente diminuído, exceto em algumas áreas industriais. O setor paga o preço – e o País também – de omissões e erros políticos acumulados principalmente nas últimas duas décadas e recentemente agravados pela desorientação da política econômica. O retorno ao patamar de 2019 deve ser apenas o começo de uma jornada muito mais ambiciosa.

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