O consumidor cauteloso e a abertura

Compradores exibem menos confiança que o empresário na pós-quarentena

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 03h00

Confiança é fundamental para a recuperação, empresários e consumidores estão mais confiantes e essa é a boa notícia, mas há algo mal encaixado nessa história: os consumidores se mostram menos animados que os dirigentes da indústria, do comércio, dos serviços e da construção. Com o comprador menos entusiasmado que o produtor e o vendedor, como ganhará impulso a recuperação dos negócios? A reativação em maio ficou muito longe de igualar a queda acumulada em março e abril. Desde junho, mais lojas foram abertas em ruas e shopping centers, mas o movimento tem sido muito fraco, segundo lojistas citados pela imprensa. A quarentena parece prosseguir na economia doméstica, com mais poupança, como informa o Banco Central (BC), e mais contenção nas compras.

Não se pode dizer, por enquanto, se um consumidor diferente, guiado por novos hábitos, emerge da longa fase de isolamento e de muita contenção. Ele pode estar ressabiado, simplesmente, depois de meses de más notícias, de medo e de muita incerteza quanto às condições de retorno à normalidade – ou, talvez, à nova normalidade. A cautela, nesse caso, poderá durar pouco. Mas essa aposta é incerta.

Com R$ 20,5 bilhões de captação líquida no mês passado – diferença entre depósitos e saques –, as cadernetas de poupança bateram um recorde para os meses de junho, segundo o BC. Em junho de 2019 os poupadores haviam deixado um saldo de R$ 2,5 bilhões. Em um ano o resultado líquido foi multiplicado por oito. A diferença entre depósitos e saques havia sido maior em maio, R$ 37,2 bilhões. Mas o número de junho se distingue por ser o maior para esse mês na série iniciada em 1995, ainda nos primeiros tempos do real.

Além desse recorde, outro detalhe muito relevante caracteriza a evolução da poupança neste ano. A entrada líquida de recursos chegou a R$ 84,43 bilhões nos primeiros seis meses de 2020. O resultado do primeiro bimestre foi uma retirada líquida de R$ 15,93 bilhões. O comportamento mudou a partir de março, quando os depósitos superaram os saques por R$ 12,17 bilhões. A pandemia havia chegado. O saldo líquido aumentou para R$ 30,46 bilhões em abril e atingiu em maio R$ 37,2 bilhões, valor recorde para todos os meses.

Analistas atribuíram essa mudança às quedas da bolsa de valores, muito fortes naquela fase, e à insegurança de outros investimentos, mas esses fatores com certeza explicam apenas parcialmente a evolução das contas de poupança. O público das cadernetas é formado principalmente por famílias de renda modesta, pouco familiarizadas com outros tipos de aplicação e pouco propensas a investimentos financeiros de risco. Outros investidores, mais endinheirados e mais informados sobre assuntos financeiros, tendem mais facilmente a orientar suas aplicações segundo a movimentação dos juros e do mercado de ações.

A coincidência entre o aumento do saldo das cadernetas e a redução do consumo é evidente. O aumento apenas moderado da confiança dos consumidores encaixa-se facilmente nesse quadro.

Dados da Fundação Getúlio Vargas coletados nas duas primeiras semanas de julho mostram avanço de todos os índices de confiança. No caso dos empresários, o aumento de 7,3 pontos levou o indicador – ainda uma prévia – a 87,7. No caso dos consumidores, chegou-se a 75,9 pontos, com alta de 4,8. Entre maio e julho houve recomposição de 78% das quedas de março e abril no índice dos empresários e de 60% dos pontos perdidos no indicador dos consumidores.

No setor empresarial, a maior alta, de 17,3 pontos, ocorreu no segmento da indústria. O aumento de 17,3 pontos conduziu ao nível de 94,9. A menor variação, de 0,8 ponto, foi registrada entre os comerciantes, mas o patamar alcançado (85,2) foi o segundo mais alto. Com aumento de apenas 4,8 pontos, o índice de confiança dos consumidores ficou em 75,9 pontos, bem abaixo da média empresarial (87,7).

Passageira ou permanente, a cautela do consumidor poderá influenciar o ritmo da recuperação e da nova etapa de crescimento. É um bom tema para consideração de empresários e do governo.

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