O consumo puxa a economia

Manutenção parcial da ajuda aos mais vulneráveis apoiará negócios, mas desemprego e insegurança serão entraves

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 03h00

Três meses de recuperação econômica foram completados em julho, com o varejo liderando a retomada e já superando a atividade de fevereiro. A indústria corre em segundo lugar, seguida pelos serviços, onde a reativação, ainda fraca, começou em junho. Não se pode falar de retomada, no caso da agropecuária, o setor mais firme durante a crise deflagrada pela covid-19. A produção de grãos e oleaginosas neste ano-safra, estimada em 257,8 milhões de toneladas, deve superar por 4,5% a do período anterior.

As vendas do comércio e a produção industrial começaram a reagir logo depois do tombo de abril. O movimento no varejo ganhou firmeza com a redução do isolamento e tem sido em parte sustentado pelo auxílio emergencial a dezenas de milhões de trabalhadores. O volume de serviços prestados aumentou 2,6% em julho e em dois meses cresceu 7,9%. De fevereiro a maio a queda havia sido de 19,8%.

A reação mais lenta dos serviços é facilmente explicável. As famílias deram prioridade, como já se notava antes da crise, ao consumo de bens, especialmente de alimentos, medicamentos e produtos de higiene e limpeza.

Além disso, alguns serviços, como os de cabeleireiros, barbeiros e de salões de beleza, só voltaram a funcionar depois da reabertura da maior parte do comércio. Em julho, os serviços de alojamento e alimentação diminuíram 5%, depois de dois meses de expansão. O transporte terrestre, puxado por indústria, agropecuária e comércio, avançou 5,8%, depois de ganhos de 6,9% em maio e 3,7% em junho, mas ficou 15,5% abaixo do registrado em julho de 2019.

O transporte aéreo, uma das atividades mais prejudicadas pela crise, cresceu 17,1% em julho, mas o movimento foi 51,4% menor que o de um ano antes. No ano, os serviços da aviação ficaram 35,2% abaixo do resultado de janeiro a julho de 2019.

A recuperação mais firme tem sido a do varejo mais voltado para o dia a dia dos consumidores – o conjunto formado por supermercados, lojas de roupas, tecidos, sapatos, medicamentos, produtos de higiene e limpeza, revistas, livros, jornais, eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos, para citar os itens mais óbvios.

Com o avanço de julho, esse comércio já superou por 5,3% o volume vendido em fevereiro, mês anterior aos primeiros impactos da pandemia. Depois do pior momento, as vendas desse amplo varejo aumentaram 13,3% em maio, 8,5% em junho e 5,2% em julho. Só um segmento, o de super e hipermercados, teve crescimento zero em julho, mas também esse dado é facilmente compreensível. As oscilações desse tipo de comércio foram menos fortes, desde o início da crise, porque as famílias sempre deram prioridade à compra de alimentos.

Com a inclusão do comércio de veículos, seus componentes e material de construção, chega-se ao varejo ampliado. As vendas desse conjunto maior cresceram 16,5% em maio, 11,1% em junho e 7,2% em julho. O ramo de veículos, no entanto, continuou 19,7% abaixo do nível de fevereiro.

A produção industrial, depois de crescer 8,7% em maio, 9,7% em junho e 8% em julho, continuou abaixo do nível anterior à pandemia. A queda acumulada em março e abril foi de 27%, e três meses de expansão foram insuficientes para a recuperação do volume perdido. Além disso, entre janeiro e julho a indústria produziu 9,6% menos que em igual período de 2019. Com reação mais veloz, as vendas do varejo comum ficaram em sete meses 1,8% abaixo do volume de um ano antes. No caso do varejo ampliado, a mesma comparação mostra um desempenho 6,2% inferior, principalmente por causa do ramo automobilístico.

Mesmo com a reativação dos setores urbanos e com o crescimento da agropecuária, o balanço final deste ano será inferior ao de 2019, já muito fraco. O Produto Interno Bruto (PIB) deverá ser 5,31% menor que o do ano passado, se estiver certa a mediana das projeções do mercado. A manutenção parcial da ajuda aos mais vulneráveis dará algum apoio aos negócios, mas desemprego e insegurança ainda serão entraves importantes. O governo continua devendo um claro roteiro de recuperação econômica.

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