O contrassenso da desigualdade vacinal

Distribuir vacinas de modo a produzir uma imunidade equitativa é um imperativo biológico, econômico e moral

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 03h00

A pandemia de covid-19 não acabará enquanto todos os países não vacinarem um porcentual seguro de seus cidadãos, algo em torno de 70% de suas populações completamente imunizadas, de acordo com epidemiologistas. Em outras palavras: enquanto houver espaço para o coronavírus seguir seu ciclo natural de circulação e adaptação ao ambiente, o mundo viverá aos sobressaltos.

Foi o que aconteceu no dia 26 passado, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a variante Ômicron, identificada na África do Sul, como uma “variante de preocupação”. Pouco se sabe até agora sobre o risco real oferecido por essa nova cepa. Análises preliminares indicam que se trata de uma variante altamente transmissível, porém menos letal. A OMS alertou que os riscos da Ômicron só serão plenamente conhecidos em “algumas semanas”, tempo em que também são esperados os resultados dos testes de eficácia das vacinas disponíveis contra a nova cepa.

É consenso que uma pandemia só termina quando é atingida a chamada imunidade coletiva, ou seja, quando a circulação de um vírus fica restrita diante do aumento das barreiras de defesa contra a infecção entre os indivíduos. Esse estágio de proteção é alcançado de duas formas: por meio da vacinação em massa ou como decorrência do elevado número de infecções e mortes. Portanto, distribuir vacinas de modo a produzir uma imunidade equitativa entre os países não só é uma medida necessária à luz da biologia, como, sobretudo, é um imperativo moral. O objetivo de qualquer governo civilizado deve ser o fim da crise com o menor número de mortes possível, principalmente porque a ciência foi capaz de produzir em tempo recorde não uma, mas cinco vacinas seguras e eficazes contra o coronavírus.

Quando se enfrenta uma pandemia, qual o sentido de países manterem estoque de quatro doses de vacina por habitante, às vezes mais, enquanto outros, sem os mesmos recursos financeiros, têm tão poucas?

Só 6,6% da população de todo o continente africano está totalmente imunizada contra o coronavírus, de acordo com o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC). Isso decorre, principalmente, da falta de imunizantes em quantidade suficiente para todo o 1,3 bilhão de habitantes do continente. Após uma reunião de emergência, os ministros da Saúde do G-7 reafirmaram o compromisso de doar um bilhão de doses aos países de baixa renda. A distribuição equânime de vacinas, como lembrou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, “não é caridade”. Uma pandemia só pode ser superada com esforço conjunto.

Em alguns países da América Latina a situação é apenas menos ruim do que na África. No Paraguai, por exemplo, apenas 36% da população está totalmente vacinada contra o coronavírus. Na Bolívia, 33,8%. Na Venezuela, 32,6%. Não surpreenderá se novas variantes forem identificadas no continente.

A volta a uma relativa normalidade nos países onde há boa cobertura vacinal será apenas ilusória enquanto ainda houver países em que a vacinação mal começou. Ou seja, a desigualdade na distribuição dos imunizantes é um contrassenso que tende a prolongar o martírio coletivo.

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