O contrito

Sérgio Cabral admitiu, pela primeira vez, ter sido o maior beneficiário do esquema de corrupção sem precedentes concebido por ele para tomar de assalto o Estado que governou

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2019 | 03h00

O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, condenado a penas que somam quase dois séculos de cadeia, admitiu ao Ministério Público Federal (MPF), pela primeira vez, ter sido o maior beneficiário do esquema de corrupção sem precedentes concebido por ele para tomar de assalto o Estado que governou por sete anos, entre 2007 e 2014.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal, Sérgio Cabral disse que “decidiu confessar para ficar bem consigo mesmo”. Pudera. O mínimo que alguém pode querer ao vislumbrar um longo período de encarceramento é estar em paz com o próprio espírito. “Esse foi o meu erro de postura, de apego ao dinheiro, ao poder. Isso é um vício”, disse o contrito.

A confissão não chega a ser tão surpreendente já que a culpa do ex-governador pela miríade de crimes dos quais foi acusado restou comprovada no curso dos vários processos a que respondeu e pelos quais foi condenado. Cabral ainda é réu em outros processos e são escassas as possibilidades de pleitear futuros benefícios penais por meio da confissão tardia. Desde sua prisão, em 2016, já houve algumas tratativas para um acordo de colaboração premiada, mas as provas contra o ex-governador eram tão convincentes que o MPF considerou que não valia a pena celebrar o acordo. Agora, cabe aos procuradores federais avaliar se as informações que Cabral traz à baila podem ser provadas e, assim sendo, justificam a concessão de tais benesses.

O que mais surpreende no depoimento do ex-governador é a naturalidade e a desfaçatez com que aborda o seu peculiar “vício” de assaltar o erário. Com muita desenvoltura, Cabral explicou ao juiz federal como funcionava a distribuição das propinas entre os envolvidos no megaesquema fluminense com a candura de um pai que estivesse tratando da divisão da mesada dos filhos.

Em um dos momentos mais luminares de seu depoimento à Justiça – e que explica o atual estado de penúria do Rio – Cabral afirmou haver uma “tradição” de cobrar propina das empresas prestadoras de serviços ao Estado. Na área da saúde, por exemplo, 3% do valor dos contratos deveriam ser pagos ao ex-governador e 2% ao ex-secretário da pasta, Sérgio Côrtes. Sérgio Cabral também afirmou ser dono do dinheiro lavado pelos doleiros Renato e Marcelo Chebar. “Participei da propina, sim. O dinheiro dos irmãos Chebar era meu dinheiro, sim”. Este montante – US$ 100 milhões em contas no exterior – foi entregue à Justiça pelos irmãos Chebar em 2017.

Cabral não poupou ex-aliados em seu primeiro depoimento pessoal ao juiz Marcelo Bretas. A única poupada foi Adriana Ancelmo, sua mulher, a quem isentou de responsabilidade por negociatas feitas por meio de seu escritório de advocacia. “Eu contaminei o escritório”, disse Cabral. 

Sérgio Cabral implicou seu sucessor no governo do Rio, Luiz Fernando Pezão, ao dizer à Justiça que ele, hoje preso, recebia mesada de R$ 150 mil em dinheiro oriundo do esquema de corrupção. O ex-prefeito do Rio Eduardo Paes também foi implicado ao ser acusado de receber “de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões” do empresário Arthur Soares, vulgo “Rei Arthur”, para financiar suas campanhas eleitorais, a título de caixa 2. Em nota, o ex-prefeito negou a acusação. 

Outro acusado por Cabral de “ter interesse” nos recursos oriundos do esquema espúrio é d. Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro. A Arquidiocese do Rio negou que o religioso tivesse qualquer interesse escuso na celebração do contrato entre o governo do Estado e a Organização Social Pró-Saúde, que é administrada por padres.

A despeito da gravidade das acusações feitas por Cabral – que devem ser objeto de criteriosa investigação –, uma eventual nova tratativa para um acordo de colaboração premiada com o ex-governador, caso seja isso que ele pretenda, há de considerar, antes de tudo, o interesse público. Nada parece ser mais do interesse público do que a manutenção de um criminoso como Sérgio Cabral na cadeia pelo tempo que a lei determina.

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