O ‘custo Bolsonaro’

O presidente faria muito bem se parasse de impor custos extras aos agricultores do País, que temem boicote

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 03h00

Reportagem do Estado mostrou que os principais frigoríficos nacionais estão se organizando para realizar campanhas institucionais contra um possível boicote de importadores de carne bovina. A iniciativa seria uma resposta a consultas feitas por clientes preocupados com a possibilidade de o gado ser proveniente de áreas de desmatamento ou ilegais. Há o temor de que a deterioração da imagem do Brasil no que diz respeito à proteção do meio ambiente, em especial na Amazônia, afete a confiança não só de compradores dos produtos da agropecuária brasileira, mas de investidores estrangeiros interessados em apostar nessas empresas.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), por exemplo, considerou a possibilidade de publicar um anúncio em jornais como o Financial Times e o New York Times para esclarecer que suas empresas respeitam todos os controles de qualidade e que seu produto não é proveniente de áreas com ambiente degradado. Acabou desistindo da publicação pois concluiu que o problema não se restringe aos frigoríficos, mas diz respeito a todo o agronegócio, o que provavelmente demandará um esforço conjunto - de empresas e do governo - para superar essa desconfiança.

Tudo isso mobilizará tempo, dinheiro e pessoal. Esse é o que se pode chamar, a esta altura, de “custo Bolsonaro”.

O “custo Bolsonaro” é o resultado da desastrada política externa do presidente Jair Bolsonaro. O mau jeito do governo para lidar com as críticas internacionais às queimadas e ao desmatamento na Amazônia está gerando enorme prejuízo para a reputação do País. O presidente escolheu hostilizar os críticos em lugar de investir no esclarecimento. Preferiu colocar tudo em termos ideológicos, terreno em que não existe possibilidade de entendimento. Tal comportamento pode ser útil para manter eletrizada a militância nas redes sociais, mas tem sido ruim para o agronegócio, que disputa um mercado competitivo e depende da manutenção da boa imagem dos produtores para fazer bons negócios. O setor responde por nada menos que 44% do total de exportações brasileiras, segundo dados de agosto.

“Não podemos seguir um discurso do nós contra eles, precisamos de um caminho mais virtuoso”, ponderou Marcos Jank, professor do Insper especialista em agronegócio e comércio exterior. Jank lembrou, com razão, que “não há nenhum fundamento que possa impor dificuldades ao agronegócio moderno brasileiro” e, portanto, “não é a agricultura que está desmatando a Amazônia e isso é preciso ser dito”.

É fato que o Ministério da Agricultura tenta fazer sua parte em contatos com investidores e governos estrangeiros, mas essa dedicação, mesmo com o reforço da iniciativa privada, pode ser inócua se Bolsonaro continuar a prejudicar a imagem do País. Afinal, não pega bem, nem de brincadeira, o presidente da República se intitular “capitão motosserra” e fazer pouco das preocupações ambientais que estão na ordem do dia em todo o mundo.

Os estragos causados por esses maus modos do presidente e de alguns de seus auxiliares mais estridentes se multiplicam. O mais grave até agora foi a decisão do Legislativo austríaco de obrigar o governo de seu país a não ratificar o acordo da União Europeia com o Mercosul, como resposta às queimadas na Amazônia. Além disso, foram deflagradas iniciativas para boicotar produtos agropecuários brasileiros em países europeus. “A sustentabilidade deixou de ser um assunto distante. O consumidor de hoje não quer saber apenas quanto um produto custa, ele também se preocupa com a sua origem e a forma como foi produzido”, explicou ao Estado Johannes Cullberg, dono de uma rede de produtos naturais da Suécia que está deixando de comprar produtos brasileiros.

É essa realidade que amplia os desafios para o agronegócio do Brasil. Reconhecido internacionalmente por sua sofisticação e qualidade, o setor terá de se desdobrar para conservar seu crédito e seu mercado. Diante disso, o presidente Bolsonaro faria muito bem se parasse de impor custos extras aos agricultores do País.

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