O custo da ideologia

Em nome do “anti-imperialismo”, Mercosul compra e vende praticamente apenas dentro de suas fronteiras

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 03h00

As dificuldades do Mercosul são inúmeras. A principal talvez seja sua tendência a se fechar para o mundo, comportamento que se explica, em parte, por um cacoete ideológico típico da América Latina chamado genericamente de “anti-imperialismo”. Em nome da proteção dos interesses regionais contra uma suposta invasão de potências econômicas globais, o Mercosul contentou-se a comprar e vender praticamente apenas dentro de suas fronteiras, e o resultado disso é a participação ainda hoje irrisória dos países que o compõem no comércio global.

Esse isolacionismo se acentuou no início dos anos 2000, a partir da ascensão ao poder de lideranças populistas de esquerda – sobretudo Lula da Silva no Brasil e Néstor Kirchner na Argentina. Pior: enquanto se recusava a negociar uma área de livre comércio com o Nafta (Estados Unidos, Canadá e México) e fazia jogo duro para se acercar da União Europeia, o Mercosul saiu a celebrar acordos insignificantes – foram fechados negócios com Israel, Egito e Palestina.

A ideologia sempre foi um mau negócio para o Mercosul, e a volta do kirchnerismo ao poder na Argentina é uma ameaça de atraso ainda maior. Não à toa, o presidente eleito Alberto Fernández prometeu, durante a campanha, “revisar” o anunciado acordo do Mercosul com a União Europeia, para evitar que, “mais uma vez, nós vendamos a eles produtos primários e eles nos vendam produtos industriais” – típico discurso terceiro-mundista.

Do lado brasileiro, o comportamento do atual governo em relação ao Mercosul tem sido igualmente pautado pela ideologia, malgrado as reiteradas promessas do presidente Jair Bolsonaro de tratar dessa questão de maneira desapaixonada. Se, por um lado, Bolsonaro está certo em defender a abertura do bloco comercial, por outro, não pode fazê-lo ameaçando a Argentina de exclusão.

O ânimo punitivo de Bolsonaro em relação à Argentina é fruto da vitória de Fernández, que tem como vice-presidente Cristina Kirchner, a quem os bolsonaristas consideram a encarnação do demônio. O chanceler Ernesto Araújo, por exemplo, escreveu no Twitter que “as forças do mal estão celebrando” a vitória do kirchnerismo, enquanto “as forças da democracia estão lamentando pela Argentina, pelo Mercosul e por toda a América do Sul”. O chefe da diplomacia brasileira considera que “vem por aí”, na Argentina, “fechamento comercial, modelo econômico retrógrado e apoio às ditaduras”.

O comportamento do presidente argentino eleito não é muito melhor. Em provocação nada diplomática, durante a campanha Fernández foi a Curitiba para abraçar o presidiário Lula da Silva, qualificando como “preso político” um condenado por corrupção em três instâncias judiciais, em processo que respeitou rigorosamente o direito de defesa. Já vitorioso, Fernández tornou a demonstrar seu profundo apreço “por meu amigo Lula” e prometeu que, com Cristina, “recuperaremos aos poucos nossos laços de fraternidade e respeito” – uma referência aos tempos em que lulopetistas e kirchneristas articulavam a transformação do Mercosul em bloco bolivariano.

Nada disso augura um bom futuro para o Mercosul, que, para bem funcionar, depende de estabilidade política e econômica entre seus integrantes. Como lembrou o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil, José Augusto de Castro, o comércio entre Brasil e Argentina já sofreu um grande revés neste ano graças à crise argentina, e o cenário pode piorar ainda mais para os dois países em razão de turbulências internacionais. “Não adianta os presidentes trocarem farpas. Ideologia é uma atividade abstrata que não aumenta exportações. O que exportamos são bens e serviços”, disse Castro.

Será necessária uma grande dose de pragmatismo para colocar os interesses comerciais dos dois países acima da ideologia. Quem sabe Bolsonaro possa aprender algo com seu ídolo, o presidente norte-americano, Donald Trump – que, ao contrário do presidente brasileiro, telefonou para Fernández para felicitá-lo pela eleição e para lhe dizer que gostaria de vê-lo “imediatamente”.

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