O custo da informação confiável

Multiplicação do jornalismo amador torna mais importante o jornalismo profissional

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 03h00

A revolução digital abriu possibilidades formidáveis. Literalmente na palma da mão, cada indivíduo tem o poder de acessar instantaneamente todas as informações produzidas no planeta e, a um tempo, se tornar, nas redes sociais, repórter, editor, articulista e divulgador. Mas, ao contrário do que muitos pensam, essa multiplicação infinitesimal do jornalismo amador torna mais importante, e não menos, o jornalismo profissional. A sanidade do debate público no meio virtual depende da valorização da informação confiável por parte das redes digitais. E a remuneração das notícias apuradas pelos jornalistas e veiculadas pelas redes é uma questão de justiça.

“Precisamos promover um ecossistema digital saudável e equilibrado, no qual a opacidade dos algoritmos não acabe decidindo que informações são relevantes para uma pessoa ou sociedade, e no qual a desinformação possa ser combatida com um jornalismo profissional de qualidade”, adverte um manifesto de entidades que representam a mídia das três Américas, entre elas a Associação Nacional de Jornais brasileira. “Para isso, é necessário que existam meios sustentáveis, que recebam compensação pelo valor que geram em benefício da comunidade.”

Uma pesquisa do Pew Research Center mostrou que o aumento quantitativo de informações nas redes sociais é inversamente proporcional ao aumento qualitativo: o público que as utiliza como principal fonte de informação é menos engajado e menos informado em comparação com o público de fontes como mídia impressa, TV, rádio ou sites de notícias. Em um círculo vicioso, o público das redes é mais exposto à desinformação e mostra menos capacidade de discernimento.

Mais grave é quando a amplificação da desinformação é não apenas difusa, mas deliberadamente impulsionada por facções da sociedade ou, pior, por políticos, partidos e mesmo governos. Todos os indicadores evidenciam a escalada de uma indústria profissional de desinformação. Como principal veículo dessa indústria, as redes têm sofrido pressão em todo mundo por intervenções regulatórias. É no mínimo de seu autointeresse – se o interesse público não bastasse – que elas se engajem no combate à desinformação.

As armas mais poderosas nesse combate são as notícias produzidas pela indústria de informação, e as redes têm cada vez mais se municiado delas, destacando-as por meio de seus algoritmos. Isso atrai usuários interessados em informações confiáveis, os quais, por sua vez, atraem a publicidade.

Com esse antídoto o ambiente digital é desintoxicado e, aparentemente, todos ganham – as redes, seus usuários e as empresas que publicam seus produtos. Mas só aparentemente: quem mais tem perdido é justamente quem produz o antídoto. As notícias apuradas pelas mídias são veiculadas pelas redes na forma de trechos; os trechos são acessados e compartilhados pelos usuários, sem que eles cheguem a ingressar nas plataformas jornalísticas; e as receitas de publicidade são absorvidas pelas redes.

Com certa recalcitrância, gigantes como Google e Facebook têm oferecido às mídias acordos de remuneração pelas licenças de conteúdo. Mas o monopólio de facto das Big Techs faz com que as condições de um “acordo” sejam distorcidas a ponto de a compensação ser, na prática, uma discricionariedade unilateral.

Por isso, governos de todo o mundo estão elaborando leis para garantir parâmetros de compensação ou ao menos de negociação, grosso modo emulando para o mercado jornalístico um processo que foi realizado para o mercado musical.

Foi para reiterar a necessidade de um equilíbrio para os atores do ecossistema digital entre liberdade de expressão, direitos autorais e propriedade intelectual que as entidades jornalísticas das Américas publicaram seu manifesto.

As informações verídicas têm um valor civilizacional – e também monetário, como bem sabem as redes que lucram com a publicidade em torno delas. E o jornalismo que as produz tem um custo. Mas, por qualquer critério concebível, esse custo compensa com sobras o prejuízo que a desinformação impõe à sociedade e a cada cidadão.

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