O desafio chinês

A cumplicidade com a Rússia pode ter vantagens geoestratégicas para a China, mas é incompatível com a ordem global

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2022 | 03h00

É consensual que, se há um país cuja esfera de influência é suficientemente grande para pôr fim à guerra na Ucrânia, é a China. Tudo indica que não o fará. Mas nada indica que dará pleno apoio à Rússia.

Oficialmente, a China se absteve de condenar a Rússia na Assembleia e no Conselho de Segurança da ONU, mas deplorou o conflito e apelou a uma solução pacífica. Externamente, seus diplomatas afirmam que todo país deveria ter sua “soberania e integridade territorial” protegidas, “inclusive a Ucrânia”, e que estão “extremamente preocupados com os danos a civis”. Internamente, a máquina de propaganda recicla os argumentos russos para a invasão: os EUA e a Otan são os principais culpados.

Tais ambivalências sugerem que, do ponto de vista do regime chinês, o desafio é não tanto solucionar um dilema entre apoiar ou condenar a Rússia, mas exercitar um equilíbrio delicado – talvez impossível – entre ambos os polos.

Este é o resultado de uma condição híbrida da China que, por um lado, é similar à da guerra fria do século 20 e, por outro, contrasta com ela, inserindo o país na ordem pós-guerra fria do século 21: geopoliticamente, a China é adversária dos EUA e seus aliados, especialmente no Indo-Pacífico; economicamente, são interdependentes, especialmente na Europa.

A China está alinhada com a Rússia em sua hostilidade às democracias liberais. Pouco antes da invasão, ambas declararam uma “amizade calorosa” e “sem limites”. Uma vitória rápida teria servido à China, favorecendo sua narrativa da decadência americana e preparando o cenário para uma invasão a Taiwan. Mas uma combinação da resistência ucraniana, da inaptidão russa e de uma enérgica coordenação ocidental frustrou esses planos.

O prolongamento da guerra ameaça a globalização econômica na qual a China cresceu espetacularmente nas últimas décadas e aumenta o risco de que ela seja vista como cúmplice de um pária carniceiro – e eventualmente fracassado. As ameaças nucleares de Putin ameaçam o mundo e tocam uma corda visceral na Europa.

Os investimentos e laços financeiros da China com a Rússia estão expostos às sanções ocidentais. As interrupções nas cadeias de fornecimento, as carências de produtos agrícolas e as rupturas nas finanças internacionais tendem a prejudicar, quando não inviabilizar, seu ambicioso projeto de uma infraestrutura de comércio internacional, a “Nova Rota da Seda”.

O conflito na Ucrânia trouxe à China oportunidades no campo geopolítico (de fortalecer o alinhamento com a Rússia) e no campo econômico (de ganhar prestígio com seus parceiros ocidentais), mas não simultaneamente nem com a mesma intensidade. Os benefícios em um campo fatalmente resultarão em custos no outro.

Idealmente, a China deveria se alinhar à condenação e à retaliação à agressão de Putin. Realisticamente, já será um ótimo resultado se impuser alguns “limites” à sua “amizade”, empenhando-se na conquista de um cessar-fogo que afaste o risco de uma escalada da guerra para além da Ucrânia e detenha o morticínio de civis ucranianos.

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