O desafio da exclusão digital

Pesquisa estima que 35,5 milhões de brasileiros, 1 em cada 5 na faixa de 10 anos ou mais, não são usuários da internet

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2022 | 03h00

O acesso à internet cresceu durante a pandemia, mas a exclusão digital continua deixando milhões de brasileiros para trás. Entre a população de 10 anos ou mais em todo o País, 35,5 milhões de pessoas não eram usuárias da rede mundial de computadores no ano passado, segundo estimativa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Esse contingente correspondia a 19% da população nessa mesma faixa etária − praticamente 1 em cada 5 indivíduos.

O dado faz parte da TIC Domicílios 2021, pesquisa amostral sobre o uso de tecnologias da informação e comunicação lançada no dia 21 de junho pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). Em meio à crescente digitalização, tendência que ganhou força com a pandemia, é preocupante que tamanha parcela da população permaneça excluída do mundo digital.

O levantamento, menos mal, revelou expressivo aumento de acesso à rede nas áreas rurais. De 2019 a 2021, o porcentual de domicílios conectados passou de 51% para 71%. O índice também subiu nas áreas urbanas, chegando a 83% dos lares. A estimativa é de que 148 milhões de pessoas, ou 81% da população na faixa dos 10 ou mais anos de idade, tenham acessado a internet nos três meses anteriores à coleta dos dados. Esse número, por óbvio, precisa crescer. E eis aí um desafio para os três níveis de governo − União, Estados e municípios −, juntamente com o setor privado, que vem desempenhando importante papel na interiorização do sinal de internet. 

No início de junho, por unanimidade, o Senado aprovou proposta de emenda à Constituição (PEC) que inscreve a inclusão digital como um dos direitos fundamentais previstos no art. 5.º. Nem poderia ser diferente. O texto, apresentado pela senadora Simone Tebet (MDB-MS), seguiu para análise na Câmara dos Deputados. Reflete, sem dúvida, uma realidade inescapável: utilizar a internet, hoje, é questão de cidadania.

O levantamento também mostrou que a desigualdade de acesso entre a população de maior e menor renda vem caindo, embora continue elevadíssima. Na classe A, 100% dos domicílios tinham conexão à rede, ante 61% nas classes D e E. A atual diferença de 39 pontos porcentuais, referente ao ano passado, era mais que o dobro em 2015, atingindo 85 pontos.

Outras iniquidades foram captadas pela pesquisa, como o tipo de equipamento usado para navegar na internet, assim como a qualidade da conexão − o que interfere na experiência do usuário, podendo até restringir ou desestimular certas atividades. A pesquisa estimou que 64% dos usuários acessavam a internet exclusivamente por meio do celular, porcentual que era de 32% na classe A e de 89% nas classes D e E. Uma disparidade ainda maior apareceu no que diz respeito a ter ou não computador em casa: 99% dos lares na classe A contavam com esse tipo de equipamento, ante apenas 10% nas classes D e E.

Há tempos se sabe que a exclusão digital é um dos principais entraves para o desenvolvimento do País. Como mostra a pesquisa do Cetic.br, houve avanços, mas a desigualdade ainda é imensa, muito além do aceitável numa sociedade que se pretende moderna.  

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