O desastre das boas intenções

Agindo pelos motivos certos, mas de maneira errada, Pelosi ampliou riscos à segurança de Taiwan e do mundo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2022 | 03h00

Desde que a República da China perdeu a guerra civil para as forças do Partido Comunista Chinês e abandonou a China continental para se refugiar na ilha de Taiwan, em 1949, ela se tornou uma democracia vibrante e desenvolvida. Ante a crescente ameaça de reunificação forçada pelo regime totalitário da República Popular da China, ninguém deveria ser insensível ao gesto de solidariedade da presidente da Câmara dos deputados americana, Nancy Pelosi, que visitou Taipei nesta semana. Mas, já dizia o sábio bíblico, para tudo há um tempo e um lugar. Os escolhidos por Pelosi não poderiam ser mais temerários.

Desde a guerra fria, nunca os riscos de uma hecatombe nuclear estiveram tão altos, nunca a Rússia esteve tão distante do Ocidente e tão próxima da China e nunca a China foi tão hostil aos seus vizinhos e ao Ocidente.

Desde a década de 70, a paz entre Taiwan e China foi sustentada pelo mútuo entendimento – a política “Uma China” – de que Pequim buscaria a reunificação pacificamente enquanto Washington manteria sua “ambiguidade estratégica”: por um lado, não reconhecer Taiwan como um país de jure, por outro, armá-lo para que pudesse defender sua independência de facto.

O gesto de Pelosi – o último de uma série de acusações aos abusos da China, desde o massacre da Paz Celestial às atrocidades no Tibete e em Xinjiang até o assalto a Hong Kong – foi denunciado por Pequim como uma violação da política “Uma China”, mas é ele mesmo uma reação às intenções cada vez mais explícitas do ditador Xi Jinping de uma ocupação militar. No momento e local errados, contudo, a coragem não passa de temeridade e as aspirações mais nobres se pervertem em uma provocação estúpida. A visita deveria mostrar força, mas só passou a sensação de incoerência do governo americano e deixou Taiwan ainda mais vulnerável.

Primeiro, houve descoordenação entre Legislativo e Executivo. Questionado sobre a visita, o presidente Joe Biden disse que “não foi uma boa ideia neste momento”. Mas ele mesmo declarou várias vezes que não só apoiaria a “independência” de Taiwan, como empregaria forças para defendê-la, só para ser retificado depois por seus assessores. Como notou a revista The Economist, esses quiproquós transformaram a “ambiguidade estratégica” em “confusão estratégica”.

Pelosi retornará a sua casa confortável em São Francisco deixando um punhado de palavras inspiradoras em Taipei que nem de longe compensam os pretextos entregues a Pequim para escalar suas intimidações.

Uma invasão seria catastrófica para os 24 milhões de taiwaneses e para a ordem mundial. Taiwan é o principal produtor dos semicondutores que sustentam o mundo digital. O Ocidente, particularmente os EUA, pode e deve defender os valores democráticos e seus interesses. Mas isso não se fará com gestos de santimônia, e sim com concertações diplomáticas, que dissuadam a China de estrangular economicamente Taiwan, e com armas e treinamento, que dissuadam um assalto militar, garantindo ao povo de Taiwan condições para defender suas liberdades e negociar seu destino com a China.

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