O desbloqueio dos portos da Ucrânia

A flexibilização do bloqueio aos portos é boa notícia, a ser celebrada com cautela ante as mostras de cinismo do Kremlin

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2022 | 03h00

Ontem, após cinco meses de conflito na Ucrânia, o primeiro cargueiro deixou o porto de Odessa. É o resultado de acordos celebrados na sexta-feira pela Ucrânia e a Rússia com a Turquia, sob a supervisão da ONU. Ainda que não altere o impasse em solo ucraniano, a flexibilização do bloqueio aos portos é digna de ser festejada. Mas com cautela. Na véspera da invasão, o presidente russo, Vladimir Putin, alegou que suas tropas só estavam lotadas na fronteira com a Ucrânia para exercícios militares. No sábado passado, dia seguinte ao acordo, a Rússia bombardeou Odessa.

Conhecida como o “celeiro da Europa”, a Ucrânia é o quinto maior exportador mundial de cereais. Desde o início da invasão, a ONU alerta para as consequências catastróficas do bloqueio russo para a segurança alimentar global. Todos os dias, 828 milhões de pessoas passam fome e outros 47 milhões estão na iminência de integrar esse rol, especialmente na África, Oriente Médio e Ásia.

Pelo acordo, a Ucrânia liberará um corredor entre suas minas no Mar Negro. A Rússia, por sua vez, conseguiu garantias da ONU e União Europeia de que suas exportações de grãos e fertilizantes não sofrerão sanções. Um “centro de coordenação” em Istambul formado por Rússia, Ucrânia, Turquia e ONU inspecionará os navios para garantir que não carregam armas.

Além do acordo, a boa colheita no Hemisfério Norte e o dólar forte contribuíram para baixar os preços dos alimentos em um terço em relação ao pico deste ano. Mas as sequelas da pandemia e a perspectiva de uma guerra longa ainda os mantêm 40% acima de janeiro de 2020.

O porta-voz do Kremlin disse que a retomada do tráfego no Mar Negro é “uma boa chance de testar a efetividade desses mecanismos”. Mas essa efetividade depende, sobretudo, da boa vontade do próprio Kremlin. O acordo não foi um ato de caridade russo, mas uma resposta às pressões de parceiros e aos riscos de escoltas americanas. De toda forma, a ONU não dispõe de meios para exigir seu cumprimento.

Os bombardeios do sábado passado teriam atingido alvos militares e, portanto, não implicam, tecnicamente, um rompimento. Mas suscitam desconfiança nos exportadores e mantêm os prêmios dos seguros altos. Com isso, os preços dos grãos seguem elevados, facilitando à própria Rússia financiar sua guerra. O ataque também sinaliza que a Rússia mantém os planos de controlar o sul da Ucrânia e de dificultar as exportações de Kiev.

Ou seja, após meses com a agressão ilegítima de Putin restringindo a cadeia de alimentos, a comunidade internacional conseguiu recuperar uma rota importante. Mas nada impede que Putin tenha cedido para, em seguida, impor novas restrições.

A aliança ocidental precisa manter os esforços para abrir rotas alternativas por terra. Até o momento, essa aliança forneceu armas suficientes à Ucrânia para reduzir o avanço russo, mas não para retomar seu território. Enquanto a Rússia não for forçada a recuar e não se convencer de que os custos da guerra continuarão a crescer, a segurança alimentar global seguirá em risco. 

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