O desenvolvimento da Amazônia

A missão, contudo, não pode ser levada adiante temendo-se supostas 'ameaças'

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2019 | 03h00

Ministros de Estado foram a Tiriós (PA) para tratar com lideranças locais da construção de uma ponte que ligará as duas margens do Rio Amazonas no município de Óbidos (PA), de uma usina hidrelétrica no Rio Trombetas, em Oriximiná (PA), e da extensão do trecho da BR-163 que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA) até a fronteira do Brasil com o Suriname.

Os três projetos fazem parte do plano do presidente Jair Bolsonaro para o desenvolvimento da Amazônia e se inserem em um contexto geopolítico marcado predominantemente por uma resistência ao que membros do governo, notadamente os de origem militar, chamam de “pressões globalistas”. O Planalto, no entanto, justifica a execução das obras como um “marco” da política de incentivo econômico que o governo pretende adotar na região. A população dos municípios da margem norte do Amazonas estaria “abandonada”, segundo o governo federal, e o objetivo, com a execução dos projetos, é “implementar um plano de ocupação para estimular o mercado regional”.

Há de ter muito cuidado nas tratativas e, em especial, na execução de projetos dessa magnitude. É sutil a calibração de objetivos fundamentais que muitas vezes conflitam entre si, embora não sejam de todo incompatíveis. Está-se falando do desenvolvimento econômico do País, da proteção do meio ambiente e dos interesses sociais, econômicos e culturais dos povos indígenas e das comunidades ribeirinhas.

Dos projetos que o presidente Jair Bolsonaro pretende desenvolver na Amazônia, o que parece menos complicado, ao menos a um primeiro olhar, é a construção da ponte que irá unir por terra as margens do Rio Amazonas no município paraense de Óbidos. Hoje, a ligação entre as margens é feita por travessia de barcos e balsas. A ponte serviria como alternativa terrestre para o escoamento da produção de grãos da Região Centro-Oeste. É sobejamente sabido que o déficit de infraestrutura é um dos obstáculos para o crescimento do País e uma obra que atenue os efeitos perniciosos de décadas de atraso será bem-vinda, observadas todas as particularidades envolvidas em um projeto como este, bem como seus efeitos locais.

A construção da hidrelétrica de Oriximiná não é uma ideia original do governo atual. Há muito tempo vem sendo estudada como uma importante fonte de abastecimento de energia para a Zona Franca de Manaus, que sofre com os constantes apagões que ocorrem naquela região. Entretanto, o desenvolvimento do projeto da usina no Rio Trombetas tem fracassado há sucessivos governos por obstáculos de natureza socioambiental. Cabe ao presidente Bolsonaro explicar à sociedade o que pretende fazer para que tais obstáculos sejam vencidos e, enfim, o projeto possa seguir bom curso durante seu mandato, produzindo os bons resultados que dele se espera.

A extensão da BR-163 até a fronteira com o Suriname também deverá superar grandes desafios logísticos e riscos ambientais não menos importantes. Para avançar de Santarém até o país vizinho, as obras para estender a rodovia deverão adentrar uma larga porção do território do Pará coberta de mata densa. A região é repleta de áreas protegidas. Antes de executar obra de tal monta, é o caso de o governo federal, por meio dos Ministérios e órgãos competentes, encampar uma força-tarefa para resolução dos graves e crônicos problemas que afetam a principal via de escoamento da produção de grãos do País. Problemas como alagamentos, péssimas condições da estrada, trechos sem asfaltamento, entre outros, causam prejuízos anuais bilionários aos produtores, encarecem os produtos e obstam o crescimento do País.

É oportuna a preocupação do presidente Jair Bolsonaro e de seu principal corpo de assessores com um projeto de desenvolvimento da Amazônia. A missão, contudo, não pode ser levada adiante temendo-se supostas “ameaças” - como o “Triplo A” ou a atuação de “campos progressistas” da Igreja Católica - prescindindo da devida cautela.

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