O desmanche da ciência

Redução de recursos para o Ipen compromete a produção de remédios contra o câncer

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 03h00

Com a informação de que suspenderá temporariamente a importação de insumos para a produção de medicamentos utilizados em diagnóstico e tratamento de câncer por falta de recursos orçamentários, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) é mais uma vítima da asfixia financeira que o governo Bolsonaro vem promovendo na área de ciência, pesquisa e educação desde sua posse.

A informação foi divulgada pelo Ipen menos de dois meses após dois acontecimentos lamentáveis. O primeiro foi o colapso da Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que reúne informações sobre trabalhos realizados por todos os pesquisadores brasileiros. O segundo acontecimento foi a advertência feita pela comunidade científica brasileira para o risco de um apagão, também decorrente de cortes orçamentários, das atividades do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que atua na área de tecnologias de exploração espacial e meio ambiente, de desenvolvimento de programas de previsão meteorológica por meio de satélites e de monitoramento de queimadas e emissão de alertas climáticos. 

No caso do Ipen, a paralisia de suas atividades e serviços de medicina nuclear afetará não só a fabricação de remédios contra o câncer, mas, também, a elaboração de estudos e diagnósticos de diversas outras doenças, num momento em que o País enfrenta uma das mais graves crises de saúde pública de sua história. A paralisia também dificultará o funcionamento de hospitais e clínicas especializadas e causará problemas em famílias que têm algum de seus membros fazendo quimioterapia. Segundo previsões da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN), a suspensão na distribuição dos radiofármacos do Ipen prejudicará cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Atualmente, o órgão produz 25 diferentes radiofármacos, o que corresponde a 85% do fornecimento nacional. Além disso, os remédios produzidos pelo Ipen representam cerca de 10% dos medicamentos usados para tratar diversas doenças graves. “A crise do Ipen causará um apagão no tratamento do câncer no País”, adverte o presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares, Celso Cunha. “O Ipen é produtor quase exclusivo no Brasil dos isótopos radioativos que são utilizados na medicina nuclear. Por exemplo, no diagnóstico de cintilografia óssea para procurar metástase óssea em pacientes com câncer e na cintilografia miocárdica para avaliar pacientes infartados e com doenças coronarianas”, afirma o presidente da SBMN, George Coura Filho. 

Há duas semanas, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou um estudo chamando a atenção para o preço que o País está pagando pelo desprezo demonstrado pelo governo Bolsonaro à ciência e à pesquisa. O estudo mostrou que, no ano passado, a União investiu em ciência um volume de recursos inferior ao que destinou em 2009. Apesar da importância das pesquisas num período de pandemia, em 2020 foram repassados R$ 7,2 bilhões, ante R$ 18 bilhões em 2009, em valores corrigidos pela inflação. Entre outros órgãos, além do Ipen, do Inpe e do CNPq, essa redução prejudicou o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Centro de Pesquisa em Energia e Materiais, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. 

No campo econômico, a asfixia orçamentária da ciência acarreta perda de competitividade do País, num momento em que as disputas no âmbito de um comércio globalizado são cada vez mais acirradas. No campo político, o menosprezo pela produção do conhecimento dificulta a formação de uma política científica capaz de subsidiar um projeto de futuro para o País, ao mesmo tempo que o torna um mero figurante nas discussões nas relações internacionais e na geopolítica mundial. 

Esse é o preço que o Brasil está pagando por ter um governo incapaz de compreender que ciência é progresso e poder. 

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