O dever cívico do presidente, e o nosso

O presidente alimenta o devaneio de transformar o Brasil num país de pequenos Bolsonaros. É dever cívico dos cidadãos conscientes impedi-lo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2021 | 03h00

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, disse em entrevista à TV CNN que o presidente Jair Bolsonaro tem o “dever cívico” de entregar à Corte as provas que diz ter de que houve fraude nas eleições de 2018.

Na quinta-feira passada, Bolsonaro tornou a levantar dúvidas sobre a lisura do pleito que venceu e também a do segundo turno da eleição de 2014, que, segundo o presidente, foi vencida de fato pelo tucano Aécio Neves, e não pela petista Dilma Rousseff.

“Mais que desconfio, eu tenho convicção de que realmente tem fraude. As informações que nós tivemos aqui, talvez a gente venha a disponibilizar um dia, é que em 2014 o Aécio ganhou as eleições, em 2018 eu ganhei no primeiro turno”, declarou o presidente.

Ao dizer que Bolsonaro tem o “dever cívico” de entregar à Justiça Eleitoral as provas das tais fraudes, como vem prometendo fazer desde 2020, o ministro Barroso recordou qual é a principal obrigação de todos os cidadãos numa democracia: a de fazer o possível para preservar as instituições democráticas.

Como o voto dos cidadãos é, em si mesmo, pilar dessas instituições, pois lhes confere legitimidade democrática, nada é mais importante do que assegurar que essa expressão da vontade cidadã seja autêntica, e não fraudada.

Por isso, se Bolsonaro de fato tem provas de que houve adulteração nas votações, deveria tê-las apresentado à Justiça Eleitoral assim que as recebeu. Era o que faria qualquer cidadão consciente de seus deveres para com a sociedade, como salientou corretamente o ministro Barroso. Se Bolsonaro até agora não o fez, das duas, uma: ou não tem prova nenhuma ou ignora quais são seus deveres cívicos. Qualquer dessas hipóteses é terrível em se tratando do presidente da República.

Mas Bolsonaro descumpre outros deveres cívicos. Se todos os cidadãos têm de agir no sentido de preservar os bens coletivos, como se exige numa República, é lícito esperar que, durante uma pandemia, todos colaborem o máximo que puderem para reduzir o contágio. Afinal, a saúde é um bem coletivo por definição. Esse imperativo é ainda maior em se tratando do presidente da República, pois é dele que deve partir o exemplo.

Como se sabe, Bolsonaro atua dia e noite para desmobilizar os esforços da sociedade para conter a pandemia de covid-19. Depois de sabotar vacinas, promover aglomerações e atacar governadores que determinam medidas de distanciamento social, o presidente deu agora de fazer campanha contra o uso de máscara, método reconhecidamente eficiente para diminuir o risco de contaminação.

Pior: na quinta-feira, praticamente estimulou os brasileiros a se deixarem contaminar pelo coronavírus. “Todos os que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina, porque você pegou o vírus pra valer. Quem pegou o vírus está imunizado”, disse Bolsonaro, contrariando toda a literatura científica a respeito da pandemia e, de quebra, colocando em dúvida a eficácia das vacinas.

Ao fazê-lo, o presidente estimula seus governados a ignorarem seus deveres cívicos, incentivando cada brasileiro a agir conforme seus interesses pessoais em detrimento da saúde de todos – exatamente como faz desde sempre o próprio Bolsonaro.

O presidente alimenta o devaneio de transformar o Brasil num país de pequenos Bolsonaros, gente para quem os únicos deveres cívicos são os deveres familiares. Nessa distopia, egoísmo é virtude e solidariedade, crime. Instaura-se o cada um por si.

O caos resultante dessa perversão moral é precisamente o que busca Bolsonaro em seus delírios golpistas. Deseja um país em que nada é confiável, nem as vacinas nem as urnas. No mesmo pronunciamento em que duvidou da eficácia das vacinas, o presidente elaborou uma mirabolante teoria segundo a qual o Supremo Tribunal Federal mandou soltar Lula da Silva para fazê-lo presidente, e insinuou que a Justiça Eleitoral impede o “voto auditável” justamente para facilitar a fraude em favor do petista. E previu que esse desfecho pode “criar uma convulsão no Brasil”, obviamente provocada por ele mesmo. É dever cívico dos cidadãos conscientes impedi-lo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.