O dinheiro curto e os serviços

Também o setor de serviços caiu para patamar inferior ao da pré-pandemia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 03h00

Com dinheiro curto e ainda acuadas pela pandemia, as famílias deram pouco suporte, nos últimos meses, à recuperação dos serviços, um setor especialmente importante como fonte de empregos. Como a indústria e o varejo, esse grande conjunto de atividades, onde se incluem alimentação, hospedagem, turismo, transporte, comunicação e serviços pessoais, entre outros, perdeu impulso depois da reação prolongada até o trimestre final de 2020. Em março, o volume de serviços prestados foi 4% menor que em fevereiro. O balanço de 12 meses mostra uma queda de 8% em relação ao período imediatamente anterior.

Com o recuo de março, o setor ficou 2,8% abaixo do patamar de fevereiro do ano passado, imediatamente anterior ao baque causado pela pandemia. Como no caso de outros segmentos, faltou combustível para a continuação da retomada. A reação dos serviços começou em junho, com um mês de atraso em relação ao comércio varejista e à indústria. Com o crescimento de 4,6% contabilizado em fevereiro, pela primeira vez o setor superou o nível anterior à crise sanitária.

Segundo o gerente da pesquisa, Rodrigo Lobo, restrições impostas por causa do avanço da pandemia explicam as novas perdas do setor de serviços, embora as medidas tenham sido “menos impactantes” que as do ano anterior. Perdas importantes foram certamente causadas por limitações impostas ao funcionamento de vários serviços. Além disso, autoridades locais e estaduais mantiveram campanhas contra aglomerações e tentaram limitar a movimentação de pessoas. Mas é difícil evitar a referência a outros fatores.

Não há como examinar o desempenho dos serviços sem olhar a situação dos consumidores. O desemprego é referência incontornável, hoje, para essa discussão. Os últimos dados gerais do mercado de trabalho, do trimestre dezembro-fevereiro, indicam desocupação de 14,4% da força de trabalho, uma das maiores do mundo. Nada permite, por enquanto, supor uma grande mudança nos meses seguintes.

Uma desocupação tão grande afeta os gastos de milhões de famílias. Parte significativa desse quadro resulta da crise do setor de serviços, normalmente um grande empregador. O efeito, nesse caso como em muitos outros, realimenta a causa. Com tantos desocupados, é inevitável uma forte redução das despesas com bens e serviços.

Os serviços prestados às famílias diminuíram 27% em março. No primeiro trimestre, foram 25,4% inferiores ao volume de janeiro a março de 2020. Em 12 meses a perda acumulada foi de 39,8%. De modo geral, a distribuição dos números da pesquisa corresponde, sem surpresa, às observações do dia a dia. O transporte aéreo diminuiu 10,2% em março e 43,4% em 12 meses. Isso reflete a redução do turismo e também das viagens motivadas por trabalho.

Em contrapartida, os serviços de informação e comunicação cresceram 1,9% em março e no primeiro trimestre superaram por 3,5% igual período de 2020. Os serviços de tecnologia de informação avançaram 4,1% de fevereiro para março e 10,2% em 12 meses. Esses números ilustram com clareza as mudanças ocorridas, desde o aparecimento da pandemia no Brasil, nas formas de trabalho e na rotina dos trabalhadores e de suas famílias, incluído o ensino a distância.

Também tem crescido (3,7% em março e 4,5% em 12 meses) o grande conjunto formado por “outros serviços”, onde se incluem corretoras de títulos e outras atividades financeiras, serviços de arquitetura e de engenharia e assistência jurídica, entre outros componentes.

Também parece razoável levar em conta as prioridades dos consumidores, especialmente num quadro de dinheiro curto, desemprego alto e incertezas. No conjunto dos gastos, a alimentação deve aparecer como preocupação número um para a maioria das famílias. Os dados do varejo confirmam essa ideia, mostrando a evolução mais firme das despesas em supermercados. Nessa escala, a maior parte dos gastos com serviços deve ficar abaixo das despesas com bens. Não basta considerar restrições impostas pelo enfrentamento da pandemia. O aperto dos consumidores também conta.

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