O efeito eleitoral do ‘bolsa farelo’

Avaliação sobre o presidente melhora entre quem recebe o Auxílio Brasil, o que mostra o potencial eleitoral daquilo que Bolsonaro denunciava como ‘bolsa farelo’

Notas&Informações, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2022 | 03h00

É um dado da realidade: medidas populistas rendem votos. Jair Bolsonaro sabe disso. Como é notório, o presidente, objetivamente, quase nada tem de positivo para apresentar aos eleitores como justificativa para sua recondução ao cargo – ao contrário, terá de se desdobrar ao longo da campanha para encobrir os desastres que provocou em diferentes áreas. Por essa razão, não resta alternativa a Bolsonaro a não ser apelar para a velha fórmula de conceder benefícios imediatos para uma parcela desesperada da população em troca de votos, além de lançar mão de políticas públicas focalizadas em nichos de supostos apoiadores.

Uma das iniciativas nesse sentido foi a nova rodada do Auxílio Brasil, com valor mínimo de R$ 400, cujo pagamento começou a ser feito em 14 de fevereiro passado. Depois das incertezas quanto à manutenção do programa assistencialista, dada a dificuldade de encontrar a fonte para sua sustentação, a liberação do dinheiro provavelmente foi um alento para milhões de brasileiros. O resultado eleitoral desse alívio não tardou.

Uma recente pesquisa da consultoria Quaest mostrou que a visão negativa do governo Bolsonaro caiu significativamente entre os eleitores que hoje recebem o Auxílio Brasil e que declararam ter votado no atual presidente em 2018. Em janeiro deste ano, 41% dos respondentes desse grupo disseram que o governo era “pior do que o esperado”. Em fevereiro, o porcentual subiu para 45%. Agora em março, já com os pagamentos do Auxílio Brasil restabelecidos, os que consideram o governo “pior do que o esperado” somam 23%.

Não se pode condenar quem passou a ter um olhar positivo em relação a Bolsonaro depois de receber dinheiro do governo em meio aos efeitos econômicos devastadores da pandemia de covid-19. Deve-se levar em conta que cresceu exponencialmente o número de brasileiros expostos à insegurança alimentar, e qualquer forma de auxílio pode ser o último recurso antes da fome.

O problema, portanto, não é – nunca foi – a existência de um programa de transferência de renda. Ao contrário. Um país tão brutalmente desigual como o Brasil precisa de uma política pública dessa natureza, mas não meramente assistencialista. Deve ser concebida não para ser apenas um alívio imediato, e sim para proporcionar condições para que seus beneficiários, uma vez satisfeitas suas necessidades de sobrevivência, tenham condições de deixar a dependência no futuro. Isso requer uma correlação com políticas igualmente bem estruturadas nas áreas de educação e saúde. Ou seja, requer um governo digno do nome, algo ausente em Brasília.

O Auxílio Brasil não é nada disso. Trata-se de uma gambiarra com evidente viés eleitoreiro. É tão mal-ajambrado que, durante bom tempo, a população mal sabia quem, como, quando, quanto e se iria receber.

Bolsonaro não tem capacidade para formular uma política consistente e eficaz de transferência de renda. Jamais se interessou por isso. Seu objetivo é formar uma legião de cativos de um programa assistencialista para chamar de seu, nos moldes do que sua nêmesis, Lula da Silva, fez com segmentos populacionais, sobretudo na Região Nordeste, dependentes do Bolsa Família. De tempos em tempos, esse programa, fortemente vinculado ao PT, foi manipulado ao sabor dos interesses de Lula da Silva e do partido, não os da população brasileira. Como bom ilusionista, o chefão petista sempre foi hábil ao criar essa confusão entre seus interesses e os dos brasileiros mais pobres.

Bolsonaro se dedicará dia e noite neste ano eleitoral a criar meios de aumentar as chances de sua reeleição. Aí está seu “pacote de bondades”, que inclui, além do Auxílio Brasil, intervenções no preço dos combustíveis, auxílio para moradia de policiais e toda a sorte de caraminguás.

O Brasil é um país que demanda um governo que leve muito a sério as políticas educacionais e as políticas de transferência de renda, o que Bolsonaro, justo aquele que denunciava o Bolsa Família como “bolsa farelo”, só enxerga como meras esmolas eleitoreiras.

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