O empobrecimento de um país

A crise da covid-19 agravou problemas sociais e econômicos dos argentinos

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 03h00

A rápida degradação dos indicadores sociais da Argentina depois que o país foi atingido pela pandemia do novo coronavírus torna cada vez mais plausíveis as projeções de que, no fim deste ano, metade de sua população estará vivendo em estado de pobreza. A chegada da crise da covid-19 acentuou dramaticamente dificuldades econômicas e sociais que a Argentina enfrentava havia pelo menos dois anos.

Tendo de combater uma crise sanitária de proporções até então desconhecidas que surgiu apenas três meses depois de ter assumido o cargo, o presidente Alberto Fernández não tem encontrado respostas adequadas para os novos problemas da Argentina. Da mesma forma, Fernández não está conseguindo superar os velhos problemas que já assolavam o país em dezembro do ano passado, quando tomou posse. São dificuldades bem conhecidas dos argentinos, como a recessão e a perda de dinamismo da economia, a inflação, a dívida externa e a deterioração das condições de vida de boa parte da população. O que vinha mal ficou pior.

Estatísticas recentes dão a dimensão social dos problemas do país. A taxa de pobreza medida pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) alcançou 40,9% da população no primeiro semestre deste ano. Isso significa que 18,5 milhões de argentinos são considerados pobres. Os que vivem abaixo da linha de pobreza passaram de 8% para 10,5% da população. São 4,7 milhões de pessoas nessa condição.

O avanço da pobreza é rápido. No fim de 2019, 35,5% da população vivia na pobreza, ou seja, o índice cresceu 5,4 pontos porcentuais em seis meses. Isso representa 2,5 milhões de pessoas. É o número de argentinos que, em seis meses, se somaram aos que já viviam nessa condição. No semestre em curso, se as previsões se confirmarem, um número bem maior de pessoas será incorporado aos pobres do país.

A persistência dos velhos problemas e o surgimento de novos, sem que haja sinais de efetiva ação pública para contê-los, tendem a tornar o quadro pior na segunda metade do ano. A atividade econômica vem perdendo força. O PIB do país encolheu 19,1% no segundo trimestre, resultado pior do que o do primeiro trimestre de 2001 (queda de 16,3%), quando a economia entrou em colapso por causa da instituição da paridade entre peso e dólar.

Com variação de 2,70% em agosto, a inflação de 12 meses está em 40,7%, inferior à de 2019, de 53,8%, mas ainda muito alta. A inflação, por si só, assombra as empresas e as famílias, que, quando podem, tentam preservar seu patrimônio. Com altos índices de desemprego e com queda de renda em razão da redução da atividade econômica, a consequência não poderia ser muito diferente da que os números da pobreza do Indec mostram.

A manutenção ou fortalecimento de medidas de restrições à mobilidade na área metropolitana de Buenos Aires e a expansão, pelo interior do país, de casos de covid-19 deixam o cenário ainda sombrio para o segundo semestre.

Dificuldades para reabrir a economia, a perda de mercados no exterior, as dificuldades que o governo de Alberto Fernández tem para atrair investimentos, a constante necessidade de buscar novos entendimentos com os credores externos (o país voltou a negociar com o Fundo Monetário Internacional), o cenário de devastação social provocado pela pandemia tornam a recuperação ainda mais problemática. O histórico político peronista-populista do presidente e a presença forte da ex-presidente Cristina Kirchner nas decisões de governo (ela é vice-presidente de Fernández) agravam o problema. A agenda heterodoxa do governo na área econômica, com restrições a negócios e controle de preços, de fluxo de capitais e de importações, também compõe esse cenário desolador.

A América Latina é apontada como a região mais atingida pelo desemprego no pós-pandemia, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho. O problema é particularmente duro para os mais jovens. O cenário, ruim na região, parece pior na Argentina

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