O Enem e o deboche de Weintraub

Ministro erra mais uma vez ao recusar-se a atender ao pedido dos secretários estaduais que sugeriram adiar o Enem

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2020 | 03h00

Depois de ter ironizado o modo como os chineses falam, postando no Twitter um texto preconceituoso que deflagrou uma crise diplomática entre a China e o Brasil, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, voltou a incidir no mesmo erro. Desta vez, tratou de modo debochado quem o criticou por manter as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 nas datas definidas em 2019, sem levar em conta as restrições de circulação impostas pela pandemia do novo coronavírus durante o primeiro semestre letivo.

“Um monte de partideco de esquerda já começou a ‘botar pilha’ contra a realização do Enem. Se não tiver Enem, você quebra a expectativa de 5 milhões de pessoas. Quando você não tem expectativa, é facilmente cooptado. Como eles (os governos de esquerda) destruíram a economia, agora tentam quebrar as expectativas e mostrar para as pessoas que o destino é sombrio” por causa do coronavírus, disse ele.

Entre outros alvos, o ministro mirou na União Nacional dos Estudantes (UNE), que reivindicou novas datas para o Enem de 2020. Acabou atingindo os secretários estaduais de Educação, que são os principais gestores das redes de ensino básico no País. Os secretários integram governos vinculados aos mais variados partidos, inclusive aquele em que o candidato Jair Bolsonaro se inscreveu para disputar a Presidência da República.

Com seu deboche, o ministro não só mostrou por que é objeto de ações judiciais nos tribunais e de um pedido de impeachment no Legislativo, como também evidenciou o desconhecimento da importância do cargo que ocupa para a emancipação intelectual das novas gerações. Ao receber pedido de remarcação do Enem, a principal porta de entrada para as universidades públicas, ele tratou a questão pelo ângulo ideológico. Em momento algum compreendeu que sua insistência na realização das provas nas datas marcadas prejudicará os alunos mais pobres, egressos da rede pública – justamente a que mais tem enfrentado dificuldades para substituir o ensino presencial pelo ensino a distância, por causa da pandemia. De todos os alunos do ensino médio, 80% – o equivalente a 16 milhões de jovens – vêm da rede pública.

“Muitos desses jovens nem têm acesso às ferramentas necessárias para atividades virtuais e sabemos que o aproveitamento da aprendizagem fica defasado em relação às atividades presenciais”, disse, em nota, o Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed). A entidade também pediu que, por causa da pandemia, o MEC garantisse a isenção da taxa de inscrição para todos os estudantes. A isenção é assegurada aos alunos pobres, mas tem de ser feita por via eletrônica. Segundo o Consed, o número de alunos do ensino médio sem acesso à internet é significativo.

Weintraub prima não apenas por rompantes ideológicos e pelo modo vulgar como se comporta nas redes sociais, mas, também, por sua incompetência administrativa. A maior parte dos programas que anunciou desde que assumiu o MEC, há um ano, como é o caso do Future-se, não saiu do papel. No pouco que fez de concreto, como a mudança dos critérios de distribuição de bolsas de mestrado e doutorado e a redução do fomento à área de ciências humanas, foi acusado por universidades e entidades científicas de ter desorganizado o sistema de pós-graduação nacional.

Já as críticas dos secretários estaduais de Educação são procedentes. Segundo eles, em vez de se prender a uma questão de logística, insistindo em manter o calendário do Enem independentemente dos problemas causados pelo coronavírus, o ministro deveria ter encarado o pedido de remarcação das provas pelo ângulo da “justiça social”. Ao teimar em manter as datas da prova e atribuir as críticas que sofreu ao “monte de partideco de esquerda”, ele errou mais uma vez, já que sua decisão ampliará ainda mais as desigualdades entre os candidatos a uma vaga no ensino superior público.

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