O espaço público sitiado

Arrastões na Virada Cultural mostram o hiato entre o ideal de ocupação do espaço público e a realidade da violência

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2022 | 03h00

O espaço público, por definição, é de todos. E a população só tem a ganhar quando pode usufruir de ruas, praças e demais áreas da paisagem urbana. Ainda mais quem vive em uma cidade do tamanho de São Paulo e se vê diante da oportunidade de, gratuitamente, ir a shows com músicos renomados. Por isso mesmo, são bem-vindas iniciativas que convidem pessoas de todas as idades a sair de casa e a se divertir com uma programação variada.

Eis a proposta da Virada Cultural, iniciativa da Prefeitura de São Paulo que ganhou novamente as ruas no último fim de semana, após dois anos de pandemia. Oito bairros da cidade receberam atrações. Na região central, porém, o que era para ser uma festa ao ar livre deu lugar a lamentáveis cenas de violência e crime, com arrastões, roubos e brigas no Vale do Anhangabaú. 

A plateia de milhares de pessoas, no fim da tarde de sábado, incluía famílias com crianças − o que, por si só, é revelador da demanda por opções de lazer e cultura, especialmente baratas ou gratuitas. Nas ruas de acesso à área de shows, o policiamento revistou quem chegava, procedimento inédito para impedir a entrada de armas e garrafas de vidro, conforme relatou o Estadão

Por volta das 21 horas, porém, no show da cantora Margareth Menezes, cerca de 20 homens entraram em fila, no meio da multidão, e promoveram o primeiro de uma série de arrastões na área do Palco Viaduto do Chá. À exceção das vítimas, demorou até que mais gente entendesse o que estava acontecendo. Houve pânico e correria. Mais tarde, brigas ampliaram a confusão. A reportagem do Estadão testemunhou o momento em que um homem ferido à faca foi levado de ambulância − segundo testemunhas, ele faria parte de um grupo que roubava celulares. Pelo menos seis pessoas foram presas por esse tipo de crime durante a noite.

Após a violência no primeiro dia, a Guarda Civil Metropolitana reforçou seu efetivo e a Polícia Militar passou a ter presença mais ostensiva. Ainda assim, no domingo à tarde, a cantora Luísa Sonza interrompeu sua apresentação diversas vezes, para chamar a atenção para furtos e brigas que ocorriam à vista de todos. A cantora, segundo relato do Estadão, chegou a dizer, na tentativa de conter roubos e agressões: “Aqui só temos espaço para amor.”

Ora, a julgar pelo que se viu nesta última Virada Cultural, batizada de Virada do Pertencimento, há um enorme hiato entre o ideal de ocupação do espaço público, cuja premissa básica é a segurança, e a dura realidade das ruas. Não à toa, policiais se referem à Virada Cultural como “Virada Criminal”, conforme relato do Estadão

Se a proposta é levar a população a compartilhar momentos de alegria em uma área que é de todos, ficou evidente que algo precisa ser feito. A começar pela melhor articulação entre a Prefeitura e as forças policiais. Assegurar a todos o usufruto do espaço público é desejável e necessário. Mas, por melhores que sejam as intenções, isso requer a garantia de segurança. Como demonstraram as lamentáveis cenas de violência registradas no último fim de semana, essa garantia não existe.

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