O espantalho de capitais

Presidente assusta o investidor, provoca alta do dólar e prejudica a economia

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 03h00

Susto nos mercados, fuga de capitais e dólar em alta têm prejudicado os emergentes em todo o mundo, mas o Brasil foi “o país que mais sofreu com a desvalorização cambial”, disse o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em depoimento no Congresso. Em disparada, a moeda americana tem pressionado os custos empresariais, corroído os lucros e inflado a dívida externa de muitas companhias. Mas por que este país tem sofrido mais que outros? A resposta é dada por economistas estrangeiros, investidores de fora e grandes órgãos da imprensa internacional: o principal espantalho do capital externo mora no Palácio da Alvorada e seu nome é Jair Messias Bolsonaro.

A insegurança criada pelo presidente - na política, na saúde e na economia - tem afetado os fluxos de capitais e provocado forte instabilidade cambial. O problema agravou-se quando a ação presidencial dificultou o combate ao coronavírus e o País perdeu dois ministros da Saúde em menos de um mês. Mas antes disso o real já se depreciava. A alta do dólar foi importante fator de redução dos lucros, segundo estudo sobre 183 empresas com ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3.

A análise, realizada pela Economática e divulgada pelo Estado, mostra companhias com bom desempenho operacional e grande redução de lucro por causa dos custos financeiros. Esses custos, inflados principalmente pelo câmbio, podaram R$ 39 bilhões dos ganhos e derrubaram o resultado líquido. O impacto da pandemia, sensível na última quinzena de março, afetou limitadamente os números do trimestre.

O dólar subiu cerca de 30% em relação ao real nos primeiros três meses. A alta acumulada até a primeira quinzena de maio chegou a 45%, impondo perdas maiores a muitas empresas. Houve algum recuo, depois disso, mas nos últimos dias a valorização acumulada se manteve na vizinhança de 30%, confirmando o destaque do Brasil entre as economias afetadas pela depreciação cambial. Entre fevereiro e maio investidores internacionais sacaram US$ 11,8 bilhões da bolsa brasileira. Entre fevereiro e abril US$ 18,7 bilhões foram retirados do mercado de títulos, segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), com sede em Washington. Esse instituto, mantido por cerca de 500 dos maiores bancos de todo o mundo, acompanha, entre outros assuntos, a movimentação de capitais.

Parte do dinheiro retirado no primeiro trimestre já voltou aos emergentes, mas o Brasil continuou perdendo recursos. A singularidade brasileira ficou mais evidenciada em novo estudo publicado pelo IIF. De modo geral, a saída de capitais, neste ano, foi muito parecida com a observada na crise internacional de 2008-2009, mas, no caso do Brasil, a perda foi quase o dobro, como taxa, da ocorrida naquele período. Segundo o economista-chefe do IIF, Robin Brooks, os investidores foram afugentados pelas condições políticas do País e também por detalhes da política monetária, como a autorização para a compra de títulos do governo pelo BC.

A insegurança e as tensões criadas pelo presidente Bolsonaro já foram citadas em pesquisas conduzidas no mercado brasileiro, em declarações de dirigentes de bancos nacionais e em comentários de grandes investidores estrangeiros. Não há invencionice, portanto, nas notícias e comentários publicados pela imprensa estrangeira. O presidente Bolsonaro, assinalou o Financial Times em edição recente, está no centro de uma crise política e, além disso, continua ignorando a seriedade do surto de coronavírus, apesar de mais de 500 mil casos de infecção e de cerca de 30 mil mortes confirmadas. A saída de dois ministros da Saúde e do ministro da Justiça, acrescentou o jornal, desagradou aos investidores. Ao mencionar a maior saída de capitais a partir de março, o jornal londrino citou as dúvidas - já existentes - dos investidores quanto às promessas de disciplina fiscal de Bolsonaro. O risco Bolsonaro passou a ter mais peso que a confiança no ministro da Economia, Paulo Guedes. O presidente ofuscou o Posto Ipiranga.

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