O exemplo da Fapesp

Com parcerias com a iniciativa privada, a Fapesp supera ameaças ao trabalho científico

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 03h00

Graças ao financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das mais importantes agências de fomento ao desenvolvimento científico da América Latina, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) acaba de inaugurar um centro de estudos com o foco no controle biológico de pragas. A Esalq, que está criando novos departamentos no seu câmpus de Piracicaba, é uma das mais tradicionais e eficientes unidades da Universidade de São Paulo (USP).

O centro recebeu R$ 20 milhões da Fapesp e outros R$ 20 milhões da Koppert Biological Systems, uma empresa holandesa que chegou ao Brasil no começo da década de 2010 e tornou-se uma das líderes do mercado nacional de defensivos biológicos – principalmente para produtos de cana-de-açúcar. A parceria entre a Fapesp e a Koppert terá a duração de cinco anos, prorrogáveis por mais cinco. A empresa financiará atividades de prospecção de novos agentes de controle biológico, desenvolvimento de técnicas de multiplicação desses agentes e utilização de feromônios no controle integrado de pragas. Essas pesquisas podem ajudar a reduzir o uso de substâncias químicas na produção agrícola, propiciando alimentos mais duráveis e saudáveis.

Criada em 1962 com os mesmos ideais que inspiraram a formação da USP, em 1934, a Fapesp se caracteriza nos últimos tempos por investir em projetos destinados a internacionalizar as atividades acadêmicas e científicas das universidades paulistas. Quando a Fapesp foi criada, a consolidação do parque industrial paulista exigia a expansão de pesquisas tecnológicas e a USP, com problemas de orçamento, não tinha condições de financiá-las com recursos próprios. Para não deter a industrialização de São Paulo, o governador Carvalho Pinto negociou com a Assembleia Legislativa a aprovação de lei que destinava um porcentual do orçamento estadual para a Fapesp.

À medida que as mudanças tecnológicas foram ocorrendo, a agência ampliou sua área de atuação, financiando nas décadas de 1990 e 2000 o projeto Genoma – o primeiro mapeamento genético desenvolvido fora do eixo formado pelos Estados Unidos, Europa e Japão.

Na década de 2010, a Fapesp ampliou o número de acordos científicos com outros países e deu ainda mais prioridade aos projetos com interface nacional, assinando acordos de parcerias não apenas com agências públicas de fomento à pesquisa, mas, igualmente, com empresas privadas de países como Alemanha, Dinamarca, Holanda, Canadá, Suíça e Israel. Com isso, as universidades paulistas se tornaram responsáveis por mais de 51% das pesquisas de ponta em andamento no Brasil, em quase todas as áreas do conhecimento.

Além de publicar análises sobre propriedade intelectual, registro de patentes e inovação no ambiente produtivo nacional, a Fapesp tem participado de experiências de investimento de capital de risco em startups com o objetivo de desenvolver novos produtos e novos modelos de negócio. A agência parte da premissa de que o risco pode gerar fracassos, mas também é o que viabiliza o sucesso de algumas companhias. As startups são pequenas empresas que operam em condições de incerteza com base num produto, serviço, processo ou plataforma vinculados a tecnologias ainda em fase de desenvolvimento e em pesquisas de mercado.

Neste momento em que o Brasil não aparece com relevância em nenhuma das áreas-chave da chamada indústria 4.0, em que a produção é fortemente automatizada e ligada à internet, a Fapesp é uma ilha de responsabilidade e eficiência. Ao contrário do que infelizmente vem ocorrendo em outras agências de fomento à pesquisa, ela está imune às ameaças que pesam sobre o trabalho científico, como interferências políticas, enviesamento ideológico e orientações religiosas.

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