O fantasma do populismo

Argentina mostra que, sem governos responsáveis, o populismo continuará a pairar como fantasma na América Latina

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2019 | 03h00

Em junho do ano passado, participando de reunião do G-7 (grupo das maiores economias capitalistas) como convidado, o presidente da Argentina, Mauricio Macri, foi muito duro a respeito das perspectivas econômicas de seu país e das saídas para a crise. “Discutamos com a verdade sobre a mesa. Não queiramos mais enganar as pessoas dizendo que há soluções mágicas”, discursou Macri, pouco depois de ter negociado um pacote de ajuda de US$ 50 bilhões do Fundo Monetário Internacional para socorrer a Argentina. A julgar pelo andamento do processo eleitoral argentino, contudo, Macri está sendo incapaz de convencer seus compatriotas a aceitar sacrifícios para ajustar a economia.

Pior: a força política agora favorita para arrebatar a presidência argentina no pleito de outubro, como mostraram as prévias eleitorais realizadas no domingo passado, é liderada por Cristina Kirchner, cuja passagem pelo governo, entre 2007 e 2015, foi marcada justamente pelas “soluções mágicas” às quais Macri se referiu. A perspectiva do retorno de Kirchner ao poder, ainda que por interposta pessoa - ela é vice na chapa de Alberto Fernández -, é manifestação da resiliência do populismo irresponsável na América Latina.

O legado da ex-presidente é impressionante, e sob qualquer aspecto deveria representar o fim de sua carreira política. Além de ser processada por corrupção e de ter escapado da prisão em razão de sua imunidade parlamentar como senadora, Cristina arruinou os fundamentos econômicos da Argentina - obra que começou no governo do antecessor de Cristina, seu marido Néstor Kirchner.

Eleito em 2003, Néstor Kirchner herdou um país em profunda crise e que passava por forte ajuste. As perspectivas melhoraram quando o apetite chinês por commodities elevou os preços internacionais e favoreceu as exportações argentinas. Como resultado, o país tornou a crescer de forma vigorosa, e Néstor Kirchner investiu pesadamente em seu projeto nacional-desenvolvimentista, em que o Estado era o motor do desenvolvimento. O crescimento alimentou as promessas populistas do casal Kirchner - as políticas de redistribuição forçada de renda deram sensação de prosperidade às camadas mais pobres, garantindo a base eleitoral ao kirchnerismo.

Mas as circunstâncias internacionais mudaram, degradando de forma brutal e acelerada a economia argentina, fortemente dependente de um Estado que estava em franco processo de depauperação graças à ausência de medidas de ajuste.

Cristina dobrou a aposta, mantendo subsídios de apelo popular e comprando, com a concessão de privilégios, o apoio político de sindicatos e outras corporações. Ante o desastre econômico, com inflação galopante, desemprego em massa, perda acentuada de renda das classes mais baixas e clara deterioração social, Cristina optou por impedir a divulgação dos números que demonstravam o caos, como se a ignorância fizesse o país acreditar que tudo estava bem.

Nesse contexto, a vitória de Mauricio Macri nas eleições de 2015 era esperada, em razão de seu discurso de mudança, de realismo e de reformas. Muito se discutirá sobre as razões de sua imensa dificuldade para superar a crise econômica, situação que ameaça seriamente sua reeleição, mas o fato é que Macri está pagando pela hesitação em atacar o vírus do peronismo e conduzir a Argentina à modernização de fato. A persistência do desequilíbrio fiscal e da inflação, com o consequente estrangulamento da classe média, indica que os principais problemas estruturais do país não foram sequer arranhados.

Seja qual for o resultado da eleição de outubro, a lição argentina parece clara: o populismo - que promete, sem esforço, “dar esperança ao povo, trazer dias melhores e cuidar de quem mais precisa”, como disse o petista Lula da Silva ao cumprimentar Cristina Kirchner por sua vitória nas prévias - continuará a pairar como um fantasma sobre a América Latina se não houver governos responsáveis, com programas de ação claros e com disposição para o duro trabalho de unir a sociedade em torno de bons propósitos.

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